Recentemente, eu estava à mesa com uma pessoa muito querida. Durante a refeição, comentei que havia escolhido aquele prato porque ele me conectava a pessoas estimadas que já fizeram sua passagem, resgatando minhas raízes e memórias de infância e adolescência. Falei sobre o aconchego que aquele alimento me trazia — a essência do que a gastronomia chama de comfort food. Ela me ouviu em silêncio, pensou por um instante e indagou: “Isso não é um pouco de culpa?”.
A pergunta ficou ecoando.
Cheguei a carregar, por um tempo, o peso discreto do remorso — por algo que talvez tenha deixado de dizer ou de fazer a quem já se foi. Mas a própria vida ensina que remoer o passado não o muda; o verdadeiro aprendizado está em agir diferente com quem ficou, guardando a gratidão pelo tempo que tivemos.
O comfort food é muito mais do que sustento; é a tradução gastronômica do afeto. É a cena clássica de Ratatouille, em que o ranzinza crítico Anton Ego, ao provar uma colherada do prato, larga a caneta e é transportado à infância, ao carinho da mãe, à acolhida de casa. Há pratos que funcionam como essa mesma ponte temporal, devolvendo-nos a braços que já não nos podem abraçar. Comer esse tipo de alimento não é apenas nutrir o corpo, mas oferecer um abraço caloroso à própria alma.
Afinal, a busca pelo conforto do passado nem sempre é saudade; às vezes é o impulso de nos agarrarmos a quem éramos antes que o tempo nos transformasse. Como observou Marcel Proust em Em Busca do Tempo Perdido: “quando nada mais subsiste de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas, sozinhos […], o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo, lembrando, guardando, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais”.
Mas a realidade é soberana: as coisas simplesmente acontecem. Surgem imprevistos, desafios que preferíamos evitar, desfechos que jamais escolheríamos. Não há aviso prévio nem grandes rupturas visíveis no início — apenas o fluxo contínuo a nos lembrar que a estagnação é ilusão, e a transformação, certeza.
Para ser honesto, não aprecio mudanças fora do meu controle — e imagino que quase ninguém aprecie. Ainda assim, guardo um certo respeito pelas crises: foi por elas que vieram as viradas mais profundas da minha trajetória. É o velho c’est la vie: a vida não é como queremos, mas como ela é. A própria ciência confirma isso — nos sistemas biológicos e físicos, a evolução raramente ocorre no equilíbrio perfeito; é a perturbação que força o sistema a se reconfigurar. O ruído da crise quebra a inércia e impõe uma nova ordem: a vida avança pela adaptação, não pela repetição.
Ainda assim, o processo dói. Pelo caminho, nos deparamos com o medo e a frustração de ver planos ruírem. Nesses momentos, lembro que até as estruturas mais rígidas cedem — até as rochas se partem sob a persistência do tempo e da água. Se o que é mineral e aparentemente imutável se reconfigura, por que seria diferente conosco?
Enquanto a engrenagem do mundo gira, nós nos dobramos, nos reconstruímos e nos transformamos em alguém que jamais previmos. No fim das contas, nossa verdadeira busca talvez não seja a ilusão de que nada mudará, mas a capacidade de encontrar um refúgio interno que nos acolha quando a vida se revelar inteiramente diferente do que imaginamos.

Belo texto! A presença da culinária, da ciência, do conhecimento, do saudosismo e da arte de escrever corretamente estão presentes nessa narrativa bem construída!