Fui fazer a barba aqui em Brasília e, na barbearia, me deparei com um cartaz que listava os preços: Barba R$ 70,00, Cabelo R$ 80,00 e Rapa Côco R$ 45,00. A leitura daquela última expressão me catapultou instantaneamente para a infância, para os dias em que meus avós paternos, Zé e Zefinha Maia, moravam na Feira Central de Campina Grande. Aos sábados, quando me era permitido acompanhar meus pais nas compras da semana, vivia um ritual vivo, sonoro e aromático — algo que certamente explica por que carrego, até hoje, um afeto quase instintivo pelas feiras livres, buscando sempre visitar as de cada lugar por onde ando.
A Feira Central não era apenas um mercado; era — e continua sendo — um organismo vivo, uma parte pujante da cidade a céu aberto, feita de cores, cheiros e vozes sob o sol campinagrandense. Entre as barracas de frutas, o cheiro de coentro fresco, as verduras, os temperos, as ervas medicinais, os queijos de coalho e de manteiga, as carnes, os peixes, as galinhas vivas ou abatidas, as flores e as plantas, as panelas e os utensílios domésticos, desdobrava-se um inventário infinito da vida cotidiana.
Havia ali uma mistura rica de sabores, aromas e diversidade: produtos de couro, quinquilharias de lata, artesanato, cantadores e folhetos de cordel pendurados ao vento. Naquele mosaico, trabalhavam os barbeiros ao ar livre, acomodando seus clientes em cadeiras simples sob o céu aberto. O povo, com seu humor típico e sem rodeios, os chamava de “pela porco” — ou seria mesmo “pela poico”? Era a navalha rápida, o corte no zero, a higiene pragmática resolvida ali mesmo, no meio da rua.
Como escreveu a poeta Adélia Prado: “O que a memória ama, fica eterno.” A Feira de Campina permanece viva em mim justamente por isso: não como uma lembrança estática, mas como uma raiz que continua nutrindo quem eu sou.
Nos últimos quarenta anos, porém, o tempo operou uma transição silenciosa e profunda no modo como nos relacionamos com o consumo e com a cidade, deslocando o eixo do convívio social do chão batido das feiras livres para o piso polido e impessoal dos supermercados. A vibração das vozes dos feirantes, o cheiro forte das ervas e o ritual humano da pechincha deram lugar à eficiência silenciosa dos carrinhos de metal, ao ar despersonalizado, às lâmpadas fluorescentes e à padronização das prateleiras em série.
Nessa caminhada de quatro décadas, trocou-se o imprevisível pelo conveniente e o afeto da conversa de calçada pela rapidez do pagamento digital; e, embora a modernidade tenha nos entregue a praticidade da escolha em ambiente climatizado, o tempo levou consigo a poesia do encontro, transformando o ato de abastecer a casa em um gesto estritamente funcional, no qual a nostalgia do antigo mercado a céu aberto persiste como uma lembrança calorosa da vida em comunidade.
Décadas se passaram e aquela expressão continuou guardada, intacta, dentro de mim. É fascinante como a mente preserva certas palavras como se fossem chaves secretas. Bastou um termo popular grafado numa barbearia urbana para anular o tempo e a geografia, conectando o Planalto Central do DF ao Planalto da Borborema, na Paraíba, e o adulto de hoje ao menino de ontem.
O “rapa côco” de agora, reconfigurado com ares de estilo e praticidade moderna, resgata a memória daquela lâmina que resolvia tudo entre o alvoroço das bancas e o vozerio dos feirantes. As coisas se ressignificam, tomam novas formas e se adaptam — tal qual a própria vida, os nossos hábitos e a nossa memória, que muda de roupagem sem jamais perder a essência de onde veio —, assim espero.
É nessa transformação sutil que se revela para mim a natureza inexorável do tempo. Ele não destruiu o meu passado, apenas o redesenhou; moldou as arestas do garoto de Campina Grande para caber no homem que hoje caminha por Brasília, sem, contudo, apagar as pegadas do caminho.
O tempo passa com a precisão imperceptível de uma navalha bem afiada, levando consigo a feira de ontem, meus pais e avós — que já não estão fisicamente comigo — e o ritmo mais lento daqueles sábados vividos na lembrança. No entanto, percebo que envelhecer não é acumular distância dos dias que se foram, mas aprender a carregar a própria história no peito.

Também viajei no tempo. Outra cidade, outra feira e histórias parecidas…