Estava rolando o feed do meu Instagram, como costumo fazer para me distrair, sem parar em nada que não fosse engraçado o bastante para me divertir. Parei em um reels de Antonio Tabet — o icônico e divertido Sargento Coronel Peçanha, personagem criado por ele —, que começava exatamente com a frase que dá título a este artigo.
Percebi de imediato que concordava com a análise dele. Por isso, decidi me debruçar sobre os pontos que mais me chamaram a atenção. Antigamente, quando eu comprava um ingresso para qualquer evento, fazia isso pelo desejo puro de estar lá, de me divertir e de realmente assistir ao espetáculo. Hoje, parece que boa parte do público compra o ingresso apenas para produzir o seu próprio show. E o pior: prejudicando o andamento do evento principal.
Segundo uma reportagem publicada pela Reuters, o US Open — um dos torneios de tênis mais importantes e prestigiados do mundo — credenciou este ano cerca de 100 influenciadores. Pasmem: uma parcela significativa deles dedicada exclusivamente a produzir conteúdo sobre gastronomia. Foi justamente isso o que mais me chamou a atenção no vídeo.
A USTA (Associação de Tênis dos Estados Unidos) buscava rejuvenescer seu público e ampliar a audiência. O impasse, contudo, é simples: partidas de tênis exigem silêncio absoluto — exatamente o oposto do que os chamados criadores de conteúdo costumam entregar.
Ir a eventos hoje parece ter como principal agente catalisador a oportunidade de transformar o local em cenário para cliques e likes. Chegou-se ao ponto de ir a um restaurante não mais para degustar, mas para gerar conteúdo. A comida ficou em segundo plano. É isso mesmo que você leu: o fenômeno é tão intenso que já existem restaurantes estrelados proibindo o uso de ring lights ou flashes enquanto os demais clientes saboreiam suas refeições.
Percebo que vivemos em uma era na qual a experiência deixou de ser algo que se aproveita para se tornar algo que se precisa provar ter vivido. A percepção mudou tanto que parece haver quem não sinta mais necessidade de vivenciar o momento: basta assistir a si mesmo fingindo vivê-lo. A questão central é: quando todo mundo quer ser o espetáculo, ninguém mais se dispõe a ser plateia. E não existe show sem plateia.
No tribunal das redes sociais, a Persona — aquela máscara que construímos para o mundo — deixou de ser um recurso de convivência para se tornar um imperativo de existência. Exibimos apenas o recorte filtrado, a estética impecável, a performance da conquista contínua. Contudo, quanto mais inflamos essa imagem pública, mais empurramos para a Sombra a nossa humanidade real: os dias ordinários, o cansaço legítimo, o silêncio sem aplausos e a dita “mediocridade”.
Negar a Sombra nos esgota, pois exige a encenação ininterrupta de um personagem. Fazer a reconciliação conosco é justamente retirar o holofote da Persona e acolher a totalidade do que somos — aceitando que a vida autêntica não acontece no palco iluminado do feed, mas na penumbra do cotidiano, onde não há necessidade alguma de plateia.
No mundo atual, parece-me existir um acordo tácito baseado na premissa de que todos precisam ser excepcionais; ninguém pode ou quer ter uma vida simples. Conversando com o meu colega de trabalho, Paulo Maurício, perguntei-me: será que as ambições mudaram? Talvez tudo esteja ligado a esses gurus de autoajuda que repetem “acredite nos seus sonhos”. Mas, se todos forem atrás apenas de projeções gigantescas, quem viverá a vida real?
Eu sou perfeitamente satisfeito com a minha “mediocridade”. Tenho o meu tempo de Sísifo na linha da individuação de Jung: fiz as pazes com ele e curto, agora, a jornada de carregar a pedra — assim como aproveito os momentos de paz interna quando ela está rolando ladeira abaixo. Como na lenda grega em que Sísifo é condenado a empurrar repetidamente uma pesada rocha até o cume de uma montanha, só para vê-la rolar de volta ao fundo, percebi que a vida real é feita desses ciclos contínuos do cotidiano.
Para Jung, a verdadeira maturidade surge justamente quando paramos de performar para a plateia e abraçamos quem realmente somos, com nossas limitações e o nosso ritmo ordinário. Carregar a própria pedra nada mais é do que o processo de se tornar autêntico: em vez de transformar a existência em um espetáculo contínuo para os outros, prefiro a paz de vivenciar a jornada — simples, humana e plenamente vivida.
