Era uma dessas quartas-feiras brasilienses em que o happy hour com o meu grupo de amigos assume o contorno de um ritual sagrado. Entre um gole e outro, no vaivém de conversas infrutíferas e devaneios aleatórios, caímos no inevitável debate sobre o Tinder — tem solteiros na turma. Eu, que nunca usei e nem pensei nisso, observava a defesa intransigente da plataforma por um adepto, me permitam não citar nomes. Foi aí que não aguentei e disparei aquela pergunta com a minha dose habitual de ironia — que às vezes me escapa, confesso, nem sempre, mentira, sempre, mas naquela noite foi inevitável: “Se o Tinder é um outlet das emoções, qual é o seu defeito afetivo de fábrica?”
Silêncio sepulcral por um segundo, e a provocação logo ganhou corpo. Afinal, se transportarmos a lógica do varejo de descontos para a arquitetura dos afetos modernos, a engrenagem revela suas rachaduras imediatamente. Um outlet não foi feito para expor alta costura sob medida ou peças exclusivas; ele existe para escoar o excedente, as coleções passadas ou os produtos com pequenos defeitos de fabricação que precisam girar rápido.
O primeiro grande erro desse bazar da alma é a ilusão do estoque infinito. Ao deslizar os dedos pela tela, o sujeito é tomado pela falsa certeza de que sempre haverá outra arara cheia de opções logo ali na frente. Essa fartura artificial gera uma incapacidade crônica de fixar a atenção e de tolerar a imperfeição. O outro deixa de ser um indivíduo singular — com seus abismos, manias e encantos — e passa a ser tratado como uma mercadoria de baixo custo de transição. Diante do menor ruído comum da convivência, como um silêncio desconfortável ou uma divergência boba, a tendência não é o reparo ou o aprofundamento, mas a devolução imediata do “produto” para a prateleira. A pressa substitui a paciência, e o descarte vira um hábito higienizado.
Para que a mercadoria rode rápido nessa engrenagem, contudo, a embalagem precisa ser impecável — ainda que profundamente enganosa. É aí que entra a comédia dos filtros superficiais e das biografias ficcionais. Na tentativa de se tornarem produtos altamente atraentes na vitrine digital, as pessoas se submetem a uma curadoria estética e existencial implacável. Criam personagens de si mesmas: amantes de trilhas que nunca subiram um morro, sommelieres de fim de semana, filósofos de parágrafo único e viajantes compulsivos cujas almas, na verdade, raramente saem do lugar. Estabelecem filtros rígidos de altura, CEP e signo, como quem seleciona as especificações técnicas de um eletrodoméstico, ignorando que o verdadeiro encaixe humano ignora gabaritos. O sujeito compra a narrativa idealizada do outro e vende a sua própria mentira gourmetizada; no primeiro encontro real, a fantasia desmorona sob o peso da realidade comum. Afinal, não há filtro de luz que disfarce o vazio de uma conversa sem repertório.
Nesse processo, até a própria vulnerabilidade humana acaba ganhando uma etiqueta de saldo. É a estética do “ligeiramente danificado”. As pessoas expõem suas neuroses, carências e desapegos quase como um aviso prévio de garantia: um termo de uso que avisa, de antemão, para o comprador levar por sua conta e risco. O encontro perde a graça da descoberta lenta e assume o tom burocrático de uma transação comercial com cláusulas preestabelecidas, onde o mistério é liquidado em nome de uma suposta eficiência prática. Tentando eliminar a dor da rejeição e o desconforto do início, o aplicativo esteriliza o acaso.
Sem a faísca do inesperado, o amor perde sua poesia e o encontro passa a ter o gosto previsível de uma refeição de micro-ondas. Como ironizava Oscar Wilde com sua acidez elegante, “a própria essência do romance é a incerteza”. Ao tentar tabelar e garantir o afeto, o outlet digital nos entrega uma transação segura, mas tragicamente sem vida. O flerte vira planilha.
Para piorar, o defeito mais refinado e perverso dessa engrenagem é a sua obsolescência programada. Da mesma forma que as roupas de fast-fashion perdem a cor na terceira lavagem, as conexões de outlet são desenhadas para não durar. O próprio algoritmo necessita da nossa solidão para continuar faturando; se todo mundo encontrar um amor de verdade e desinstalar o aplicativo, o modelo de negócios quebra. Assim, somos sutilmente viciados não no encontro, mas na busca frenética. O prazer se desloca da convivência real para o ato viciante de garimpar na arara virtual.
No fim das contas, o grande defeito de fabricação desse outlet emocional é nos transformar em consumidores compulsivos de gente. E o consumidor, por definição, é um eterno insatisfeito que gasta uma energia monumental para levar para casa algo que, na primeira chuva, encolhe. Penso que nada substitui o tempo lento da conversa nos encontros, onde a gente se descobre de verdade, sem catálogo, sem filtros de distância e com toda a maravilhosa imperfeição do olho no olho.

Excelente materia.verdade. “Nada substituí o tempo junto da conversa nos encontros”