Estive recentemente no Maior e Melhor São João do Mundo. Uma pessoa muito querida me convidou para assistirmos ao show de José Augusto no Parque do Povo, em Campina Grande. À primeira vista, o questionamento foi inevitável: o que danado José Augusto tem a ver com o São João? Absolutamente nada. Fui movido puramente pela companhia, operando com todos os meus alertas conceituais ligados. Afinal, sempre fui um crítico da presença de artistas sem qualquer vínculo com a identidade junina se apresentarem na festa. Mas eu compreendia que havia quem curtisse, e se o parque é do povo, não deveria ele ser também uma oportunidade democrática para que as pessoas assistissem aos shows de seus próprios ídolos?
O conceito de mudança me tocou profundamente ali. Talvez pelo momento pessoal que vivo, ou por experimentar o São João de uma forma que eu não fazia há anos — décadas, inclusive. A mudança exige inovação, uma adequação inevitável aos tempos e às realidades atuais. No início, cheguei a me perguntar: será que a festa está tão diferente do que eu gostaria, tão distante das minhas memórias afetivas, e por isso me choca? Lembrei-me de Nietzsche e, parafraseando-o, de que a arte existe para que a realidade não nos destrua. E foi exatamente essa barreira contra a crueza do mundo que vi erguer-se diante de mim.
Essa barreira, contudo, também expõe as fissuras dos nossos preconceitos culturais e as distorções de uma indústria que dita os rumos da tradição. Ver nomes consagrados do romantismo, como José Augusto ou Roberto Carlos, e a avalanche de estrelas do sertanejo e do forró eletrônico ou pop ocupando o topo da programação, nos obrigam a confrontar uma realidade amarga: enquanto esses gigantes drenam orçamentos astronômicos, os operários do autêntico forró — aqueles que preservam a espinha dorsal da nossa identidade — muitas vezes são empurrados para as margens do palco principal. Quando não excluídos, são relegados a cachês flagrantemente aquém de seu valor histórico, insuficientes até para lhes garantir uma sobrevivência digna. Não se trata de fechar as portas para o novo, para o que foge de nossas raízes culturais ou de proibir o forró pop, mas de compreender a urgência de um ponto de equilíbrio. Uma política pública e cultural madura deveria blindar o patrimônio imaterial, garantindo que o gigantismo comercial de fora não asfixie as vozes que nasceram da nossa cultura.
É perfeitamente possível desenhar um cenário onde o universal e o regional habitem o mesmo espaço, convivendo de forma harmoniosa e justa. A harmonia nasce do respeito à ancestralidade da festa, reservando o protagonismo estético aos ritmos que sustentam o chão de Campina Grande. A justiça, por sua vez, opera na distribuição digna dos recursos, valorizando os cantores regionais e o trio de forró local. Não se trata, obviamente, de equiparar o que comercialmente é incomparável, mas de assegurar uma valorização vertical, que venha de baixo para cima. Afinal, a pluralidade de um grande festival não precisa canibalizar as suas raízes. Quando essas forças coexistem em equidade, o Parque do Povo cumpre sua vocação mais nobre: torna-se um território generoso onde a modernidade não apaga a herança, mas aprende a dançar com ela.
Contudo, o que verdadeiramente capturou minha atenção naquela noite foi a cena de dois casais de pessoas simples, trabalhadores do povo, catadores de latinhas que interromperam a labuta em meio ao pátio para dançar, beber e cantar. Uma das mulheres, já com a idade um pouco avançada, cantava cada uma das letras sem errar nenhuma palavra, completamente encantada com José Augusto no palco. Olhando para eles, percebi que para ser feliz, para sonhar e se emocionar, não existe barreira de idade ou de dinheiro; basta entregar-se de corpo e alma ao que nos satisfaz, ao lado de quem realmente importa.
A felicidade estava nitidamente estampada no rosto deles, especialmente no dela. Em determinado momento, ela notou que eu a observava; cruzamos os olhos e ela me ofereceu um sorriso tímido, tingido de uma leve vergonha ou talvez daquela desconfiança natural de quem se sente vulnerável sob o olhar alheio. Aquele instante me inundou de uma alegria genuína e me remeteu imediatamente ao encerramento que Fernando Sabino relata na crônica com que costumava fechar o ano — intitulada, não por acaso, “A Última Crônica”. Tal qual o mestre mineiro diante do pai humilde que celebrava o aniversário da filha no botequim, senti que a vida se justificava ali: eu também quereria que a minha crônica fosse pura como aquele sorriso.
