Entrar no Viking DF, esse novo pub aqui em Brasília, é aceitar de cara o convite para consumir, além de um local agradável e de música de qualidade, uma experiência onde se encontram muitas performances — embora a gente saiba que, hoje em dia, quase todo lugar cobra esse mesmo pedágio. Só que a cena por mim vivenciada transbordou os limites do bar e escancarou uma questão muito mais profunda sobre o nosso tempo. Eu olhei para o lado e vi um cabelo que praticamente gritava não pertencer àquela pessoa.
Um aplique tão desconexo que o termo veio na hora: um verdadeiro cabelo Frankenstein. O estalo foi imediato porque eu tinha acabado de ver The Bride!, essa releitura do mito de Frankenstein dirigida pela Maggie Gyllenhaal e estrelada por Christian Bale. No filme, nos deparamos com a clássica ilusão do controle criador: o homem tenta projetar num corpo feito de retalhos a resposta para a sua própria solidão, encomendando o “outro” sob medida. Só que ali no bar o movimento era o inverso, mas calcado na mesma lógica: a própria pessoa se encomendando para o mundo, buscando estéticas e identidades pré-fabricadas.
Da textura confusa do mega hair para o pensamento na cozinha foi um ato contínuo — o ato de cozinhar está sempre no meu radar. A ideia do corpo de retalhos me levou direto para a gastronomia — mais especificamente para a carne moída vendida em bandejas embaladas e prontas para o consumidor final. Ela geralmente nada mais é do que essa mistura de partes indeterminadas, moídas e moldadas para ser, ou pelo menos parecer, uma coisa só. O paralelo com o hambúrguer no prato da mesa ao lado virou um caminho sem volta: encontramos pedaços isolados que são processados e prensados, e consumimos a mistura como se fosse uma peça única e coesa.
Aquele aplique acabou se tornando a metáfora perfeita do Frankenstein moderno. Afinal, me parece que hoje as pessoas viraram especialistas na era do enxerto visual e existencial. Tudo aquilo que não nasce de si e que se gostaria que tivesse nascido, que não passa pelo tempo do cultivo e da maturação natural, procura-se comprar e acoplar. O problema nunca foi o desejo genuíno de mudar, mas sim essa ilusão de pertencimento, penso eu. É como se estivéssemos sempre representando um papel para o mundo, cada vez mais desconectados da própria substância. Com dizia Fernando Pessoa, “finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”.
Essa busca escancara a dolorosa dualidade entre o ser e o parecer: numa tentativa quase desmedida de adequação, forjamos uma casca impecável na esperança de sermos aceitos, mesmo quando, no fundo, podemos nos sentir completamente deslocados. Há uma vulnerabilidade bonita — e sumariamente negligenciada — na honestidade da própria essência. A verdadeira questão não está em ostentar um pertencimento impecável a todo espaço em que se pisa, mas em sustentar com firmeza quem se é, aceitando inclusive o desconforto de não ser. No entanto, o pavor do não pertencimento nos faz preferir o disfarce de retalhos ao risco da própria verdade.
Mas até que ponto percebemos essa troca? Entramos num efeito manada tão automático que reproduzimos tendências, estéticas e discursos sem ao menos parar para nos questionar. Seguimos o fluxo simplesmente porque é mais fácil e confortável, pois é infinitamente menos solitário caminhar com a multidão. E o mais assustador não é a perda gradual da nossa originalidade, mas o fato de que, nesse sedativo coletivo, podemos nos sentir bem. Achamos que está “tudo certo”. O postiço vira a regra, a cópia vira padrão, e o anestésico do parecer ser programado nos faz esquecer o valor do que éramos antes de sermos moldados pelo hype atual.
Quase tudo vira uma grande colagem do ser, em que se cobiça o cabelo de uma pessoa, a estética de outra e a narrativa de uma terceira, tentando colar cada pedaço na mesma carcaça para produzir apenas ruído visual. É a montagem do que não nos pertence, onde qualquer apropriação feita sem organicidade pode desmoronar a qualquer momento, mostrando que aquela peça não faz parte do corpo e não pertence ao repertório pessoal.
No fundo, rendemo-nos ao consumo do postiço: exatamente como o hambúrguer ultraprocessado simula a textura da carne sem guardar nada da fibra original, essa beleza sintética tenta simular vitalidade, entregando apenas um arranjo montado.
No fim das contas, aquela cena banal no Viking funcionou como um espelho meio indigesto da nossa rotina. Quando a gente abre mão do próprio ser para erguer uma imagem feita de retalhos alheios, o resultado passa longe da beleza desejada. Fica só um arranjo artificial tentando se passar por inteiro — e revelando, bem ali nas emendas, a sua própria imperfeição.
