Fui ao show Tempo Rei, de Gilberto Gil, aqui em Brasília — que, por sinal, foi excepcional. Ao escutar Vamos Fugir, mergulhei no passado. Foi como se os momentos vividos tivessem se tornado presentes, tão reais que quase os toquei. Vou tentar ser breve no relato.
Naquela época, eu era mais arisco e impulsivo — talvez pelo afã da juventude. Lembro-me de uma discussão acalorada com um diretor de escola. Eu era presidente do Sindicato dos Professores e, num embate que quase virou confronto físico, só não passamos dos limites graças à intervenção de colegas.
Logo depois, fui ao restaurante Miúra, um clássico da minha amada Campina Grande, que infelizmente já fechou as portas. Lá estavam minha namorada da época e dois casais de amigos. Começamos a conversar sobre o ocorrido. Vieram conselhos — muitos deles justos, outros inevitáveis — e, com a cabeça ainda fervendo, comecei a me desligar da conversa, imerso nos próprios pensamentos.
Foi então que, olhando para ela, escrevi num guardanapo: Vamos fugir?
Ela respondeu de pronto: Pra onde quer que você vá, que você me carregue.
E assim fizemos. Partimos para outra cidade naquele final de semana — uma fuga necessária para refrescar a mente, respirar fundo e reorganizar as ideias.
Essa pequena escapada foi, na verdade, um gesto de autocuidado. Uma pausa estratégica que me permitiu reconectar com o que realmente importa. Às vezes, é no afastamento que conseguimos clarear a mente, processar dores e encontrar novos caminhos.
A música Vamos Fugir, de Gilberto Gil, traduz com maestria esse sentimento. Sua letra é um convite à leveza, à descomplicação, à busca por um lugar onde seja possível simplesmente ser feliz. Gil canta sobre “desligar o telefone”, “caminhar em qualquer direção”, “procurar um novo lugar”. É um grito de liberdade emocional, espiritual — uma entrega àquilo que realmente alimenta a alma.
A canção não fala apenas de ir embora, mas de se reencontrar. É um hino à resiliência, à capacidade de se reinventar mesmo no caos. Ela nos lembra que, em certas situações, a melhor escolha é se afastar por um tempo — para depois voltar com outra energia, com outro olhar.
Minha vivência naquela época me mostrou como a arte é espelho da alma. Fugir, naquele contexto, não foi fraqueza. Foi sobrevivência. Foi cuidado. Foi recomeço.
Como disse Albert Camus: “No meio do inverno, eu finalmente aprendi que havia em mim um verão invencível.”
E esse verão, às vezes, só se revela quando nos permitimos parar. Respirar. Fugir, sim — mas para nos reencontrar.
Não há vergonha em buscar um respiro quando a vida se torna insustentável. Há, nisso, coragem.
E você? Em que momento da sua vida já pensou em “fugir”?
