Recentemente, ao passar pela área externa do Museu Nacional da República, uma frase estampada na fachada da rampa capturou minha atenção e interrompeu meus pensamentos:
“Nem todo viandante anda estradas – Da humanidade como prática.”
Trata-se do lema da 36ª edição da Bienal de São Paulo, que também ocupa espaços aqui em Brasília.
A sentença sintetiza um dos grandes dilemas da nossa era: o conflito entre a conveniência tecnológica e a profundidade da experiência humana. O viandante não é apenas quem se desloca fisicamente; é aquele que exerce a humanidade como prática cotidiana de escuta, encontro e presença. No entanto, hoje as “estradas” tornaram-se digitais, pavimentadas por algoritmos e inteligências artificiais que prometem atalhos para tudo. O risco dessa facilidade talvez seja perdermos a capacidade de deixar um rastro autêntico.
Retomei o tema das IAs motivado pelos questionamentos que recebi após minha última coluna, Entre Cartas e Códigos. Trata-se de algo urgente, que já invade nosso cotidiano em uma dimensão que ainda não conseguimos mensurar plenamente. Não falo apenas de conveniências tecnológicas, mas de sistemas que começam a interferir diretamente em decisões que impactam milhares de vidas. Da educação à medicina, da engenharia ao direito, a IA deixou de ser apenas ferramenta de suporte para assumir protagonismo em escolhas cruciais, substituindo, muitas vezes, o discernimento humano pela frieza estatística dos dados.
A trilha do viandante não é feita de certezas absolutas, nem de respostas prontas entregues por máquinas; ela é composta de erros, aprendizado e convivência. No museu, as ruínas nos lembram que a memória exige suporte e cuidado para não desaparecer. Na vida real, porém, nossa memória exige algo ainda mais escasso atualmente: presença.
Vivemos o paradoxo da hiperconectividade: quanto mais estreitamos nossos laços com as máquinas, mais parecemos nos afastar da alteridade humana. Estaríamos diante de uma condição sine qua non, em que o progresso técnico exige, inevitavelmente, o sacrifício da presença? Ou ainda é possível construir um meio-termo, em que a tecnologia funcione como ponte — e não como abismo?
Fiz exatamente essa pergunta a uma IA, e sua resposta me surpreendeu pela proximidade com aquilo que eu mesmo pensaria:
“Não acredito que o meio-termo seja um estado natural que alcançaremos com o tempo. A tecnologia, por design, tende ao abismo porque busca eliminar o ‘atrito’. Ora, o encontro humano é puro atrito: é discordância, é o tempo do outro, é o silêncio desconfortável. Quando a IA remove esse atrito, oferecendo respostas prontas e interações sem risco, ela nos desacostuma a lidar com o humano. Portanto, o meio-termo só é possível como um ato de resistência consciente.”
Algumas pesquisas já apontam que estamos substituindo o “diálogo vivo” pela interação previsível da inteligência artificial, preferindo o conforto do isolamento à complexidade das relações humanas. Mas, como sugere a mostra “(RE)INVENÇÃO”, da Bienal, habitar o mundo de forma plena exige que não sejamos apenas usuários de tecnologia, mas sujeitos capazes de reinventar o próprio rastro.
A tecnologia pode ser bússola, mas o caminhar precisa continuar sendo nosso. Se delegarmos o pensamento e o afeto aos códigos, talvez nossas estradas se tornem perfeitas — porém nossos vestígios serão vazios.
Prefiro seguir como viandante da minha própria história: equilibrando os ensinamentos vividos com as bússolas digitais, sem esquecer que o destino final de qualquer tecnologia deve ser, sempre, o encontro humano. Afinal, a humanidade só se pratica quando temos coragem de sair da estrada pavimentada do algoritmo para sentir, novamente, o chão irregular da vida real.

Profunnnnndo!!! ????