“Papai, quer fazer o quê hoje?” — e ouviria, com aquele sorriso maroto, “qualquer merda que escolher”. Eu retrucaria: “Homem, deixe de violência”, e ele, sem perder o ritmo, soltaria seu clássico: “Vá pra puta que pariu”. Fosse ele vivo neste Dia dos Pais, a cena já estaria escrita. Quem o conheceu sabe — essa era sua frase predileta, quase um bordão que carregava consigo como marca registrada.
Hoje, em mais um Dia dos Pais sem ele, a saudade do meu pai, Bráulio Maia, se manifesta de forma especial. Ele nos deixou em 8 de julho de 2022, e a ausência física é um vazio que carregamos, mas a gratidão por sua vida e pelos exemplos que deixou é uma chama que jamais se apaga. Ele partiu em paz, com a certeza do reencontro com minha mãe, Zélia Maia, meu irmão, Braulito, e minhas irmãs, Socorro e Xenia — certeza que é um conforto imensurável para o meu coração.
Como matemático, em uma família de matemáticos, encaro a vida e a morte com uma inevitável inexatidão. O tempo é incalculável, mas a lembrança de sua personalidade marcante me consola. Papai — o “Bonitão”, como eu o chamava — era um homem forjado pela vida, mas com uma ternura peculiar, que se revelava nos detalhes.
A nossa relação, de pai e filho, era única. Embora marcado pela dureza da vida, sua sensibilidade e seu espírito vivaz sempre estavam presentes. As gargalhadas que compartilhávamos, os sambas e chorinhos que ouvíamos, as piadas de sempre e a cumplicidade que construímos eram prova de que o amor se manifesta de muitas formas, nem sempre óbvias. Ele me ensinou, a seu modo, a leveza da vida.
A vida segue, mas as lembranças permanecem em cada canto. Recordo sua maneira única de ver o mundo, sempre com uma frase de efeito na ponta da língua. Ao invés de uma despedida melancólica, guardo o seu espírito inabalável, presente nas palavras que ecoam na minha memória: “só vai quem sabe” ou “isso é coisa de cinema”. Não eram apenas expressões, mas a essência de sua personalidade. Cada vez que as repito, é como se ele ainda estivesse aqui, vivendo mais um momento comigo.
A dor da ausência é grande, mas não me paralisa. As lembranças da nossa convivência são minha maior força e meu maior tesouro: as idas ao Sabadinho Bom, as conversas acompanhadas de um chopp gelado, os jogos do Barcelona que assistíamos juntos, vibrando a cada lance, as reflexões sobre o passado e os sonhos para o futuro. O seu legado me inspira a ser um pai melhor para minha filha, Elisa Maia, e a perseverança que ele me ensinou continua guiando meu caminho.
Como disse Antoine de Saint-Exupéry: “Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.” Os momentos que vivi com meu pai moldam quem sou e me lembram que o essencial na vida está nas experiências compartilhadas com quem realmente importa.
Beijos eternos de quem sente sua falta a cada instante. Feliz Dia dos Pais.

Te amo, painho
Lendo esse texto senti a presença de Vô do início ao fim!
Texto sensível e forte na mesma proporção. ☀️