Queima fogueira, e em seu calor, aquece as memórias de um São João que, para muitos, este ano se acendeu em um lugar diferente: no coração da saudade. Foi em um daqueles domingos de Choro no Eixo, um refúgio musical em Brasília, que o bloqueio criativo se fez presente. Conversando com uma ex-aluna — longe do aconchego da Paraíba, um reencontro feliz depois de tantos anos — surgiu a sugestão: escrever sobre o São João dos que não foram. E a ideia, como um estalo de fogueira, iluminou o caminho.
Para quem, desde cedo, foi incentivado a ter uma satisfação toda especial com as festas juninas, a ausência deste ano é um golpe no calendário afetivo. Lembro-me vividamente da alegria das quadrilhas, dos passos ensaiados com um misto de timidez e euforia. O aroma da fogueira, um cheiro inconfundível que, mais do que fumaça, era o perfume da celebração — com seu ardor estalando e convidando à proximidade. O milho e o queijo de coalho, assando lentamente sobre as brasas, exalando um perfume que abria o apetite e aquecia a alma. E as comidas de milho… ah, como esquecer da pamonha, cremosa e doce, e da canjica, um abraço quente em cada colherada. Cada um desses elementos é um pedaço da minha história, um elo inquebrável com as raízes.
Porém, este ano, não ir ao melhor e maior São João do Mundo, em Campina Grande — minha querida cidade — parece algo que, em outros tempos, seria inimaginável. A ideia de não pisar no Parque do Povo, de não sentir a energia vibrante da multidão, de não ouvir o forró invadir cada canto da alma, parece uma lacuna insuperável. “São João na minha terra é São João de verdade”, como canta Elba Ramalho, e essa verdade se faz presente na lembrança.
Mas a vida é sobre ressignificar — e, ao mesmo tempo, se adaptar aos momentos e ao tempo que vivemos. As idas e vindas da vida nos ensinam que a felicidade não está amarrada a um lugar ou a uma data específica, mas sim à capacidade de encontrar o brilho em meio às sombras. E assim, este São João, mesmo com a fogueira acesa apenas nas lembranças, convida a um novo olhar, a uma nova forma de celebrar a cultura e a tradição que nos habitam, independentemente da distância física. A chama da fogueira queima, sim — mas queima em nós, como um farol que guia as memórias e acende a esperança de um reencontro, em breve, com o calor e a alegria do São João que sempre nos espera.
E para você, qual a lembrança mais forte que a fogueira de São João acende em sua memória?
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