Vivo entre dois mundos distantes, tanto em quilômetros quanto em vivências. Moro em Brasília, mas sou de Campina Grande, terra onde agora acontece o Maior São João do Mundo. Sempre que me desloco de um lugar para o outro, sinto o impacto profundo dessa travessia.
Por Brasília, apaixonei-me perdidamente. A cidade reúne quase tudo o que procuro: alta gastronomia, uma programação constante de teatro, shows, atividades culturais, o lago para remar, as colheitas sazonais de frutas e flores, o Eixão aos domingos com suas múltiplas facetas e as feiras espalhadas pela cidade. Há ainda a Chapada dos Veadeiros a poucas horas de distância e a cereja do bolo: Pirenópolis. Ah, Piri e seus encantos.
Campina Grande, porém, é outra coisa. É minha terra, minha essência, o lugar onde estão os amigos de uma vida inteira, a família e tantas pessoas queridas. É onde verdadeiramente me reencontro. As duas cidades, seus moradores e seus costumes são profundamente diferentes. A adaptação em Brasília foi difícil, mas hoje me sinto bem e construí amizades preciosas. Talvez por isso, às vezes, eu me sinta um estranho no ninho quando volto para Campina. Mas essa é uma história para outro texto.
O que quero contar é como essas idas e vindas me conectaram a duas pessoas que me ajudaram a encarar algo de que venho fugindo há quase um ano.
No próximo dia 14 de julho, completa-se um ano do grave acidente que mudou completamente a minha vida. Naquela noite vivi momentos de terror. Houve um instante em que não sabia se conseguiria sobreviver ou o que deveria fazer para sair daquela situação. O pânico deixou marcas profundas. Preciso admitir algo que durante muito tempo tentei negar: eu não superei o que aconteceu.
Pensava que sim. Minha mente simplesmente bloqueou o assunto, e talvez esse tenha sido o maior problema. Quando decidimos esconder algo doloroso, recusando-nos a aceitar e dialogar com aquilo que sentimos, não superamos a dor; nós a somatizamos.
Os reflexos desse processo apareceram em várias áreas da minha vida. No trabalho, nas relações interpessoais, nos estudos. Minha dissertação de mestrado estacionou justamente na reta final. Concluí todas as disciplinas, fui aprovado no Exame Nacional de Qualificação, mas paralisei quando restava apenas escrever e defender o trabalho.
Busquei algumas fugas. Refugiei-me na vida noturna, aumentei o consumo de bebida e procurei distrações que, no fundo, eu sabia que não resolveriam nada. Mesmo percebendo rapidamente que aquele não era o caminho, continuei tentando preencher um vazio que insistia em permanecer.
O acidente aconteceu quando caí de uma escada do primeiro andar para o térreo. Quebrei a mão e o pulso, sofri uma luxação grave nos dois joelhos, abri profundamente o braço e tive um forte impacto na cabeça, que precisou de vários pontos.
Após a queda, consegui chegar ao sofá com extrema dificuldade. Ali desmaiei. Quando recobrei os sentidos, já passava das três da manhã.
Acordei sem conseguir me levantar. Sangrava muito na cabeça. Meu celular havia ficado no primeiro andar e eu morava sozinho. O pânico tomou conta de mim.
Mais do que a dor física, o que me aterrorizava era a possibilidade de estar perdendo minhas faculdades mentais. Eu, que sempre valorizei tanto o pensamento, a inteligência e a capacidade de aprender, me vi diante da possibilidade de me tornar dependente ou perder a lucidez. Pela primeira vez, senti a morte como uma possibilidade concreta.
Ainda hoje me emociono ao lembrar daquele momento.
Com uma força que não sei explicar de onde veio, comecei a me arrastar até a escada. Subi degrau por degrau, de costas, até alcançar o primeiro andar. Cheguei à cama, consegui pegar o telefone e fazer a ligação que me salvou.
Dois grandes amigos atenderam ao chamado, acionaram os Bombeiros e me levaram ao hospital.
Meses depois, fui para Campina Grande participar da abertura do Maior São João do Mundo. Pela primeira vez em décadas, tirei dez dias de férias de verdade. Desliguei-me completamente do trabalho e das obrigações.
Foi uma das melhores decisões que tomei.
Ao chegar à Granja Baraúnas, meu refúgio, encontrei um espelho do meu próprio estado interior. O lugar estava descuidado, abandonado, precisando de atenção. Passei dias pintando, limpando, organizando e consertando pequenas coisas. Sem perceber, estava fazendo comigo mesmo aquilo que fazia com a propriedade.
Enquanto recuperava a granja, perguntava-me por que vinha abandonando a minha própria vida.
Brasília continua sendo minha escolha. Quero permanecer lá. Mas Campina Grande é minha base emocional, o lugar onde minha essência repousa. E a Granja Baraúnas tornou-se um símbolo disso.
Foi nesse contexto que surgiram duas pessoas importantes.
A primeira me proporcionou diálogos profundos em Campina Grande. Conversas que me fizeram perceber, com clareza, que eu não estava bem. Pela primeira vez em muito tempo, parei de minimizar o que havia vivido. Entendi que aquele acidente não foi um evento banal. Entendi que não dava mais para fingir que estava tudo resolvido.
A viagem acabou se tornando o ponto de partida de uma mudança necessária: aceitar o trauma, compreender suas consequências e fazer as pazes comigo mesmo.
Porque não é possível seguir adiante quando existe algo corroendo você por dentro.
Ignorar a dor foi meu maior erro. Ela continuou atuando silenciosamente, interferindo nas relações que construí ao longo desse período. Talvez eu tivesse cultivado vínculos mais sólidos. Talvez tivesse cuidado melhor da minha saúde física e mental. Talvez tivesse me permitido viver algumas experiências com mais presença.
Mas não me prendo ao exercício estéril do “e se”. A vida é um processo contínuo de aprendizado. As pessoas entram e saem dos nossos caminhos para ensinar algo — e para que também possamos deixar algo nelas.
A verdade é simples: eu não estava bem. E, para ser honesto, ainda não estou completamente. Isso é um processo.
Quando nos recusamos a reconhecer a própria vulnerabilidade, o sofrimento contamina tudo: a rotina, o trabalho, a vida afetiva, a sexualidade, as amizades e a forma como enxergamos o mundo. O primeiro passo para qualquer mudança é admitir a própria dor.
Foi então que surgiu a segunda pessoa.
Já em Brasília, ela me incentivou profundamente a escrever. A transformar em palavras aquilo que eu vinha tentando esconder de mim mesmo. A usar a escrita não apenas como registro, mas como ferramenta de cura.
Talvez seja exatamente isso que estou fazendo agora.
Percebo que, desde o acidente, vivo em estado permanente de urgência. Quero resolver tudo rapidamente. Quero concluir projetos, encerrar pendências, dizer o que sinto e viver intensamente. Quando se passa por uma experiência de quase morte — e esta já é a segunda da minha vida —, surge uma necessidade quase visceral de não deixar nada pela metade.
Continuo pensando demais. Isso provavelmente não mudará.
A diferença é que agora tento acolher o que vivi em vez de escondê-lo.
E sigo lembrando das palavras de Fernando Sabino:
“No fim tudo dá certo; se não deu certo, é porque ainda não chegou ao fim.”
Caminho convicto de que sempre é possível construir um novo mundo.
Como matemático, sei que quando dois universos se interceptam surge uma região de encontro capaz de gerar infinitas possibilidades.
Talvez seja exatamente aí que eu esteja agora.
Sigamos.

Me vejo em muitos parágrafos desse texto, por sinal, maravilhoso! Suas reflexões são sempre carregadas de ensinamentos. Abraço fraterno, chef!
Maravilha que vc está se recuperando