Dublin sempre foi uma cidade que me fascinou. Talvez porque eu goste da cerveja Guinness (seria esse o único e principal motivo?), ou porque, ao ler Ulisses, a obra-prima de James Joyce — impublicável para os padrões da época —, fiquei atordoado. Como alguém conseguiu adaptar a Odisseia de Homero a uma viagem de 18 horas pelas ruas de Dublin? Formidável.
Daí foi um passo, literalmente, para querer conhecer as ruas percorridas por Leopold Bloom e todo o microcosmo da experiência humana no limitado ambiente da Dublin de 1904. Bloom, um judeu irlandês, é, na visão de Joyce, um Ulisses moderno — ou apenas um qualquer. Fraco e forte, cauteloso e precipitado, herói e covarde, com todas as vicissitudes da vida. Ele personifica os múltiplos aspectos de cada ser humano e, de certa forma, da própria humanidade. É impossível não se identificar.
Depois de ler Ulisses, o cenário estava pronto na minha imaginação. Comecei até a pensar como seria criar uma nova Odisseia, reinventada, ambientada nas ruas de Campina Grande, na minha Paraíba — terra do Maior São João do Mundo, centro do universo e local onde tudo pode ser repaginado.
Essa leitura, como tantas outras, aconteceu nos idos da minha juventude — faz tempo, confesso. Já no início da vida adulta, conhecendo novas pessoas, participei de um torneio de xadrez. Sim, senhoras e senhores, eu era enxadrista. Foi nessa época que conheci Osvaldo, também enxadrista, e, durante uma conversa sobre o belo esporte de Kasparov, ele descobriu meu entusiasmo por Joyce e me apresentou Dublinenses. Pedi o livro emprestado e, admito, nunca devolvi (quem nunca?). Foi com essa leitura que resolvi, definitivamente, pisar em Dublin.
Dublinenses reúne quinze contos que exploram diferentes aspectos da vida na cidade e de seus habitantes. Há uma ênfase especial em experiências de infância, relacionamentos conjugais e epifanias — aquelas súbitas descobertas que iluminam a alma.
E cá estou eu, tentando percorrer os caminhos de outros enquanto sigo como caminhante do meu próprio destino. Quem sabe, pelas ruas que cruzo, descubro que o passado nada mais é do que um caminhante solitário ao nosso lado, sempre pronto a nos dizer algo, desde que nossa memória o provoque. E por que não provocar boas lembranças?
Somos o acúmulo de fatos, bons ou ruins. Esses são os percalços da vida. Mas nossa definição precisa estar naquilo que realmente importa para vivermos em paz. Ou, como disse Joyce em Ulisses: “Tudo é caro demais quando não é necessário.”
