Em Campina Grande — centro do mundo e local de irradiação do universo —, precisei soldar um dos meus anéis, já que sou adepto inveterado de pulseiras de couro e metal, além de anéis. Como atualmente moro em Brasília, pedi indicação a dois amigos do grupo Os Elementos: Valério e Wilton.
O tiro foi certeiro: na Galeria Palomo, há um ourives capaz de fazer o conserto. Hoje em dia, profissionais assim tornaram-se uma raridade; os verdadeiros artífices vêm se diluindo no tempo, engolidos pela era das lojas virtuais e das grandes plataformas digitais. Na minha época, perambular pelas ruas Maciel Pinheiro e João Pessoa era um passeio a céu aberto, repleto de deslumbres e encantamentos diante das vitrines, dos profissionais liberais e dos produtos expostos.
Com o passar dos anos, testemunhei o silêncio engolir ofícios inteiros: os amoladores de facas e tesouras que passavam apitando nas ruas, os consertadores de panelas, os sapateiros de banca e os consertadores de guarda-chuvas foram sumindo, tornados “invisíveis” pela lógica do descarte rápido. Outros ofícios enfrentam a encruzilhada da metamorfose: o tradicional chaveiro de lima e latão, por exemplo, se não se reinventar para dominar os códigos eletrônicos e os transponders, tende ao esquecimento diante do avanço inexorável das fechaduras digitais, biométricas e por aproximação. Para o artesão de hoje, adaptar a sensibilidade da mão ao rigor da tecnologia deixou de ser opção; tornou-se condição de permanência no mapa da utilidade contemporânea.
Em meio a essa volatilidade, contudo, sopra um vento favorável impulsionado pela busca pelo autêntico. A explosão do mercado de vinil, por exemplo, não é um mero capricho nostálgico, mas um sintoma claro de que há um público sedento por pausar e tatear a vida. É justamente nessa brecha afetiva que floresce um mercado vital de sobrevivência e sofisticação: a costura fina e o alfaiate que desenham a silhueta no alinhavo manual, o designer de joias e o ourives que transformam o ouro bruto em afeto moldado, o sapateiro autoral que constrói calçados para durar décadas. Eles deixaram de disputar o consumo de massa para reinar no território da exclusividade.
Foi nesse mesmo movimento que o tempo operou suas belas ironias. Ofícios que pareciam fadados ao esquecimento — dos barbeiros tradicionais aos encadernadores manuais, passando pelos restauradores de móveis e técnicos de vitrolas — ganharam novo fôlego na estética do resgate. O que antes era visto como mera necessidade do cotidiano reapareceu ressignificado: um refúgio retrô onde a precisão do gesto artesanal virou sinônimo absoluto de identidade, estilo e afeto.
Como bem dizia o mestre paraibano Ariano Suassuna: “É preciso reafirmar valores sem ter medo de ser chamado de arcaico.”
Hoje, o tempo passou e com ele trouxe as mudanças. As vitrines vibrantes de outrora deram lugar à pressa impessoal dos entregadores e à padronização das telas. No entanto, ao cruzar a porta daquela pequena oficina na Galeria Palomo e ver o ourives debruçado sobre a bancada — com a lupa ajustada ao olho, o maçarico em riste e a calma paciente de quem domina o fogo e a matéria —, fui imediatamente catapultado ao passado.
Lembrei-me do meu pai e do meu avô, marceneiros de profissão e de alma. Meu avô, Zé Maia, mantinha uma marcenaria em plena Feira Central, onde trabalhavam seus filhos, entre eles o meu pai, Bráulio Maia. Veio-me uma enxurrada de lembranças: os móveis do casamento dos meus pais, entalhados e montados pelas mãos do meu pai, continuam, na sua maioria, intactos após mais de 70 anos. Uma nobreza artesanal que hoje enfrenta duras barreiras diante da sobreposição dos móveis projetados e modulares de rápida obsolescência.
Do meu imaginário repleto de artífices, recordei-me das louças delicadamente pintadas e desenhadas à mão pelas minhas tias Julieta e Ana Lígia, juntamente com minha prima Joaninha; do esposo da minha tia, um mestre excepcional no trabalho com couro — algo tão raro de encontrar —; dos bordados cheios de afeto da minha avó Ana Escolástica e da maestria de minha tia Geni ao criar quadros em metais laminados (ganhei um com a figura de Cristo na minha primeira comunhão).
Felizmente, esse espírito vivo da criação manual não ficou sepultado no passado; ele se renova e pulsa no presente. Um grande exemplo disso é minha amiga Márcia Lucena, que, com sua imaginação fértil e habilidade nas mãos, constrói bijuterias poéticas — muitas vezes a partir de materiais reciclados — e pinta pratos, cerâmicas, enfeites e utensílios para casa com uma beleza singular.
Ali, vendo a chama devolver a integridade ao meu anel, entendi que o verdadeiro luxo não é o que se compra com um clique, mas a poesia do que resiste pelas mãos de quem ainda sabe moldar o mundo. O metal soldou; e a memória, mais uma vez, se fez inteira.

Os alfaiates nas imediações da rua Maciel Pinheiro. Meu irmão saudoso Sr Gil alfaiate. Costurava Ternos sob medidas.