Cruzar as portas do Spazzio depois de vinte anos despertou um turbilhão de lembranças. Era como caminhar entre diferentes versões de mim mesmo. Foi então que, num sobressalto — não mais que de repente —, meu olhar encontrou o inusitado escondido na obviedade do junho campinense.
Ela reluzia como um sol de verão em plena noite de São João. O vestido azul-vivo destoava completamente do couro, das botas e dos chapéus que dominavam a paisagem. Em poucos segundos, aquela desconhecida conseguiu chamar mais atenção justamente por não tentar parecer com ninguém.
Fiquei pensando na coragem que é necessária, hoje, para ser original.
Vivemos um tempo em que as tradições parecem lentamente diluídas. As comidas carregam menos memória, a música regional perde espaço para uma indústria cada vez mais padronizada e as festas, pouco a pouco, começam a se parecer umas com as outras. Como lamenta Jessier Quirino:
“O progresso chegou estropiando, passando o rolo compressor na identidade…”
Talvez seja esse o maior risco que corremos. Não apenas mudar uma festa, mas enfraquecer aquilo que ela representa. O São João sempre foi mais do que um calendário de shows; é uma forma de contar quem somos. O forró de sanfona, zabumba e triângulo, as quadrilhas, a culinária, o sotaque e os encontros carregam uma memória coletiva que não pode ser substituída sem que algo importante se perca pelo caminho.
Modernizar não deveria significar apagar. Evoluir não precisa ser sinônimo de descaracterizar. Toda cultura permanece viva justamente porque consegue dialogar com o presente sem romper completamente com as próprias raízes.
Foi por isso que aquela moça de azul me chamou tanta atenção.
Não sei quem ela é. Talvez jamais saiba.
Mas, ao romper discretamente com o padrão, ela acabou me lembrando que a autenticidade continua existindo. Em meio à multidão, escolheu ser ela mesma. Não por rebeldia, mas por naturalidade.
Nadar contra a corrente sempre exige coragem. Em Campina Grande, é quase como desafiar as ondas invisíveis do Açude Velho.
Saí dali convencido de que ainda há esperança.
Enquanto existirem pessoas capazes de preservar sua própria identidade em meio ao ruído da uniformidade, também continuará viva a possibilidade de preservarmos a identidade da nossa cultura.
Talvez Platão tivesse razão. O maior desafio nunca foi encontrar a saída da caverna, mas resistir à tentação de voltar para a segurança das sombras. Naquela noite, entre milhares de pessoas, uma desconhecida vestida de azul me lembrou que a autenticidade continua sendo um ato de coragem. E que, enquanto houver alguém disposto a escolher a própria luz, a identidade de um povo ainda terá futuro.
