Cheguei a Minas Gerais a convite da organização do Expo-Hospital Brasil 2025 e do Coren-MG para participar de um debate em Belo Horizonte sobre um tema vital: o Piso da Enfermagem e os Julgamentos da ADI 7222 no STF. O encontro, ao lado da vice-presidente do Coren-MG, Maria do Socorro Pacheco Pena, foi um fórum intenso e essencial, com a participação expressiva de profissionais que vivem a realidade do setor na ponta.
Ao sair do evento, a reflexão sobre a enfermagem — uma categoria que constantemente precisa fazer mais com menos — ainda ecoava em mim. No táxi, a caminho com meu amigo Hamilton, do Instituto TecnaSaúde, o motorista nos entregou a síntese perfeita do dilema: “as contas não batem com a ideia.”
Essa frase vai além da simples falta de dinheiro; ela toca na essência do que chamo de uma espécie de “escolha de Sofia” da saúde. Não me refiro à tragédia do romance, mas sim a um dilema inescapável em que duas (ou mais) boas opções se anulam pela escassez. O debate não é apenas sobre o financiamento do SUS ou do setor privado; trata-se da necessidade de decidir, diariamente, qual paciente, qual procedimento, qual investimento em tecnologia será priorizado quando os recursos são limitados.
- A ideia é oferecer cuidado integral e humanizado.
- A conta impõe escolher entre reduzir leitos ou diminuir a equipe por plantão.
- A ideia é valorizar o profissional com salários justos.
- A conta exige decidir entre essa valorização ou manter a operação do hospital.
Vivemos tempos desafiadores, em que a disparidade entre o que é ideal (a ideia) e o que é viável (a conta) nos obriga a escolhas difíceis. Isso é especialmente verdadeiro para a enfermagem, que encarna profissionalismo e dedicação, mesmo sob pressão crônica e lutando ainda pela plena implementação do piso nacional da enfermagem. Não é um quadro de lamentação, mas um ponto de partida para ação.
O debate em Belo Horizonte — e a frase do taxista — reforçam que a próxima etapa é transformar frustração em inovação pragmática. O objetivo não é apenas sonhar com o ideal, mas construir pontes sólidas que liguem a ideia à realidade orçamentária. Isso significa buscar modelos de gestão mais eficientes, lutar por políticas públicas que reconheçam o valor real da saúde e, sobretudo, qualificar e valorizar com políticas remuneratórias justas os profissionais para que, além de sua atuação clínica, sejam também agentes de transformação estratégica e financeira.
Afinal, a enfermagem e a saúde merecem um futuro em que qualidade e sustentabilidade não sejam dilemas de “escolha de Sofia”, mas realidades que se complementam.
E você? Que passos concretos a gestão hospitalar e os conselhos de classe poderiam dar para alinhar “as contas” com “a ideia” do cuidado integral ao paciente?
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Dr. Fabio Maia… como é gratificante poder ler um artigo com tamanha sensatez. O primeiro ponto que destaco é: A legitimidade Institucional (Expo Hospital Brasil 2025 e do Coren-MG. Outro ponto, “o dialogo com o taxista” essa identificação popular deixa a leitura bem bacana. Outro ponto que se destaca é que você não é contra a Enfermagem, isso é claro, mas também não se coloca em uma postura romântica ou militarista, sua visão é RACIONAL, tem um olhar de gestor e economista da saúde, preocupado com a sustentabilidade. Você defende que: – A valorização é necessária, mas que precisa ser compatível com a realidade fiscal e gerencial, e que o caminho não é reivindicatório, mas sim INOVADOR e ESTRATÉGICO.
A “ideia” é a valorização justa;
A “conta” é a alegação de impacto financeiro e risco de demissões em massa levantada pelas entidades patronais.
O governo federal tem realizado os repasses, conforme portarias mensais do Ministério da Saúde, mas a complexidade burocrática e a fiscalização da ponta ainda são desafios.
A pressão financeira leva gestores a um cálculo perverso onde: reduzir equipes para pagar salários maiores. Isso impacta diretamente a segurança do paciente e a nossa própria saúde, sobrecarregando os profissionais que permanecem. É uma afronta direta ao que preconiza nosso Código de Ética (Resolução COFEN nº 564/2017), que nos impõe o dever de exercer a profissão com competência e responsabilidade, algo que se torna hercúleo em um cenário de subdimensionamento.
Agora um ponto que destaco no artigo é:
Desvalorização do Enfermeiro como Agente Estratégico, você foi bem enfático num ponto crucial: a necessidade de qualificar os profissionais para serem “agentes de transformação estratégica e financeira”.
Historicamente, a Enfermagem é vista como uma força operacional, não gerencial. Somos nós, Enfermeiros, que estamos na ponta, gerenciando recursos, otimizando processos e liderando as maiores equipes dentro de uma unidade de saúde. No entanto, raramente somos incluídos nas discussões orçamentárias de alto nível. E isso precisa mudar, como lideranças da Enfermagem, não podemos nos limitar à lamentação. Precisamos, como sugere o autor, transformar frustração em “inovação pragmática”.
Para finalizar e parabenizar seu artigo, eu, como Enfermeiro deixo a seguinte mensagem:
Nossa tarefa, como líderes, é provar que a “ideia” de uma Enfermagem valorizada é, na verdade, a única “conta” que fecha a favor da saúde da população. É hora de usar nossa capilaridade, nossa competência técnica e nossa força coletiva para construir as pontes que o artigo menciona, transformando o dilema em solução.