No ir e vir da vida, cheguei a Brasília — uma cidade que se revela em encontros e carrega uma dinâmica muito particular. Aqui, a efervescência de eventos é notável. Em diferentes cantos, as pessoas se reúnem: cada qual leva sua cadeira de praia, mesa ou canga para se sentar e confraternizar, embaladas por música de excelente qualidade, em ambientes onde o descontraído e o afetivo se encontram.
Contudo, foi a jornada semanal entre Brasília e a Universidade Federal de Goiás, onde curso o mestrado em Matemática, que despertou em mim uma percepção mais profunda. Toda sexta-feira, no trajeto de ida e volta, passei a notar as caminhadas, os romeiros, as romarias. Pessoas que se deslocam a pé de uma cidade a outra, em peregrinação religiosa, movidas por fé, promessas ou gratidão.
Esse fenômeno, tão presente em Goiás, sempre me chamou a atenção. Mas foi em Pirenópolis — cidade que carrego com carinho — durante o festival de cerveja artesanal Piribier, que esse sentimento ganhou forma concreta. O que mais me marcou ali não foi apenas o show de Samuel Rosa, mas o encontro com uma pessoa e a conversa que se seguiu. Após trocarmos contatos, continuamos nos falando, e ela me revelou que faria uma dessas peregrinações. A partir dali, fui tomado por uma curiosidade sincera. Quis entender o que move alguém a empreender tamanha jornada — que dor, que fé, que amor se escondem nos passos silenciosos de uma romaria?
Perguntei a ela como havia sido a experiência. Sua resposta, carregada de emoção, ecoa até agora:
“Ah, sim! Saí de Pirenópolis e dormi em Anápolis. No sábado cedinho, fui até o trevo de Goiânia e de lá seguimos até a Basílica do Divino Pai Eterno. Foram 22 km. Quando meu pai adoeceu, em 2022, comecei a romaria. Fui com a intenção de pedir a cura. Em 2023, fui de novo. Ele vibrava a cada quilômetro. A emoção ao chegar era imensa.”
Houve um intervalo. “Ano passado, devido ao luto, eu fui, mas não consegui ir caminhando. Estava tudo muito recente. Fui só à missa, nessa época da festa.”
Este ano, a motivação mudou. Tornou-se agradecimento.
“Fui em gratidão pelas bênçãos. Caminhei com meus pedidos pessoais e com a camiseta que meu pai mais gostava. Foi tão intenso e emocionante como nunca. Senti a presença dele comigo. Me emocionei muitas vezes. É uma sensação de saber que tem um Deus que está comigo nas dificuldades e nas vitórias, e que não me abandona.”
Essa dimensão da fé também está presente em minha colega de mestrado, com quem compartilho a estrada semanal. Ela participa de algumas romarias, e seu marido, de cavalgadas religiosas — algumas das quais ela também acompanha. É impressionante como, em volta do que parece apenas deslocamento físico, existe uma riqueza simbólica de reencontros, curas e afetos.
Essas histórias me remetem ao que a caminhada representa. Ela não é apenas o ato de sair de um ponto e chegar a outro. É, muitas vezes, um mergulho interno, uma travessia de fé em busca de um lugar que simboliza paz. E, como essas pessoas, também vivi minha própria jornada sagrada.
Depois de um grave acidente de moto, que me deixou com 54 fraturas e duas placas com 27 parafusos no corpo, fiz uma promessa: quando voltasse a andar, iria até a Virgem dos Pobres, em Lagoa Seca, vizinha à minha Campina Grande. Mas o destino decidiu que esse caminho seria fora do país. Fui convidado para participar do Bike & Bier, na Alemanha. O plano era pedalar 300 km em dez dias, de Mainz a Colônia, fazendo cursos e degustações nas cervejarias artesanais. Não andava de bicicleta desde o acidente. Aquela proposta me pareceu, de imediato, uma oportunidade simbólica de cumprir minha promessa.
Chegar à majestosa Catedral de Colônia — a Kölner Dom — foi como alcançar um santuário. Rezei. Agradeci. E chorei. Minha mãe havia falecido recentemente. Ela era quem mais me cobrava: “Não esquece da tua promessa.” Naquele momento, foi como se ela estivesse ali. Um alívio tomou conta do meu peito. Uma luz acendeu. Foi, talvez, por isso que a história da minha amiga me tocou tão fundo. Em sua caminhada, vi espelhada a minha.
A vida, em sua essência, é esse eterno ir e vir entre perdas, fé e reconstruções. É uma busca contínua por sentido. Somos todos peregrinos do nosso próprio destino — carregando memórias, afetos e esperanças. E, ao contrário do que muitos pensam, nem sempre é o ponto de chegada que importa. Às vezes, é o percurso. Às vezes, é quem caminha conosco — mesmo que em silêncio, mesmo que na lembrança.
Na minha caminhada de Campina Grande à Brasília, com suas cadeiras de praia, a descontração urbana, vivo as celebrações partilhadas. Hoje vejo: ali também mora uma forma de peregrinação. Sentar-se, ouvir música, dividir uma conversa ou um reencontro — isso também é caminhar por dentro. Isso também é jornada.
Porque, no fundo, a essência da caminhada está em cada passo que nos reconecta ao que somos, ao que amamos e à fé silenciosa que nos move. Como disse Santo Agostinho: “A fé é crer naquilo que você não vê; e a recompensa por essa fé é ver aquilo em que você crê.”
E você? Já sentiu que sua estrada te leva a reencontrar algo maior do que você mesmo?

????????????????????????