Se é em decorrência dos anos idos ou por perder o afã da juventude, me percebi a cada dia mais objetivo, sem tantas ilusões e mais realista. Ou será que sempre fui assim e não tinha notado? Sinceramente penso que foi mesmo o tempo. Lendo como costumeiramente faço, encontrei o título desse artigo “Viciado na Realidade” e fiquei pensando, tai uma coisa que me encaixo, sou definitivamente uma pessoa focada na realidade, mesmo entendendo que o termo “vício” tem uma conotação negativa e implica uma dependência ou compulsão que pode interferir na nossa vida. Depois disso comecei a refletir: o que é uma pessoa viciada na realidade?
Não é comum ouvir o termo “viciado na realidade”, mas pode ser interpretado de diferentes maneiras. Em geral, a realidade é o mundo que nos rodeia, composto por todas as coisas que existem objetivamente e que podemos perceber com nossos sentidos. Assim, pensei que ser “viciado na realidade” é: alguém que é obcecado por aprender e conhecer tudo o que é possível sobre o mundo real, buscando sempre novas experiências e informações para ampliar seu conhecimento; alguém que tem dificuldade em lidar com situações imaginárias ou fictícias, preferindo sempre se concentrar no que é real e concreto; alguém que tem aversão a situações que não parecem “reais” o suficiente, como jogos de videogame, filmes de ficção científica ou livros de fantasia.
Dos três tipos de situações que citei, me encaixo mais na primeira e poderia até ser mais específico, pois passo a maior parte do tempo livre pesquisando e lendo sobre assuntos relacionados ao mundo real, como matemática, raciocínio lógico, ciência, história, geografia e política, em vez de me envolver em outras atividades sociais ou de lazer. Tenho pouca ou nenhuma vontade de me envolver em jogos de videogame ou outras atividades que envolvam situações não reais. Você é um viciado na realidade? Se encaixou em algum?
É comum lermos livros ou assistirmos filmes e nos identificarmos com os personagens. Na literatura mundial temos vários personagens de livros que podem ser interpretados como viciados na realidade, ou pelo menos tendo uma forte preferência pelo mundo objetivo e concreto em detrimento da fantasia ou da imaginação.
Vou citar dois personagens, o primeiro deles é Winston Smith, do livro “1984” de George Orwell, o protagonista do romance distópico é um funcionário do governo que começa a questionar a “realidade” imposta pelo regime totalitário. Ele é obcecado em descobrir a verdade sobre o passado e sua busca por informações objetivas e concretas o leva a se envolver em um ato de rebelião contra o regime.
O outro é Holden Caulfield, do livro “O Apanhador no Campo de Centeio” de J. D. Salinger, um adolescente desiludido com a sociedade e suas convenções. Tendo dificuldade em se relacionar com outras pessoas e preferindo se isolar em sua própria visão de mundo. Tem uma honestidade brutal e aversão a qualquer coisa que pareça falsa ou artificial, e sua busca por autenticidade pode ser interpretada como uma preferência pela realidade em detrimento da fantasia ou da imaginação.
Teria algum personagem na literatura que seria a antítese do viciado na realidade? Sim, o meu predileto. Rufam os tambores… nada mais, nada menos, do que Dom Quixote de La Mancha, personagem de Cervantes obcecado em encontrar aventuras e lutar contra o mal, inspirado por histórias de cavalaria. Com aventuras fruto de sua imaginação permeada com delírios de grandeza. Sua busca por aventura e heroísmo pode ser caracterizada como uma fuga da realidade.
Oxente? Como sou viciado na realidade e meu personagem predileto é Dom Quixote? Não sei, só sei que sou assim. Ou melhor, sou viciado na realidade, pero no mucho.
Importante observar que esses personagens são complexos e multifacetados, e suas preferências pela realidade podem ser apenas uma das muitas características que os definem. A interpretação de seus comportamentos pode variar de leitor para leitor, refletindo as preocupações e os desafios de suas épocas e contextos.
É sempre bom lembrar que a leitura principalmente de bons livros nos fornece uma visão crítica e reflexiva sobre a sociedade e a condição humana. Fica a dica.
Até Breve!
