Num daqueles instantes em que somos surpreendidos por um insight, eu estava no carro com uma pessoa querida. O trânsito avançava lentamente e a pressa de chegar começava a dominar meus pensamentos. Queria que os carros simplesmente desaparecessem da minha frente para que eu pudesse seguir adiante — uma impaciência que, acredito, todos nós já experimentamos.
Foi então que surgiu uma ideia curiosa: e se fosse possível apertar um botão de stand by na própria consciência? Permanecer ausente por alguns minutos e voltar apenas quando o congestionamento tivesse acabado.
Quantas vezes, diante das pequenas e grandes esperas da vida, não desejamos exatamente isso? Desligar por um instante e retornar quando tudo já estiver resolvido.
Essa fantasia aparentemente banal me levou imediatamente a uma lembrança muito mais profunda.
Recordei o primeiro grande acidente da minha vida, aquele que antecedeu outros tantos e que redefiniu completamente minha relação com o corpo, com o tempo e com a fragilidade humana. Naquela ocasião, minha mente e meu organismo foram levados ao limite. Passei meses preso a uma cama. Entre fraturas, cirurgias e ferimentos profundos, a dor deixou de ser um acontecimento extraordinário para tornar-se o meu standard — minha condição habitual, uma presença contínua, íntima e inevitável.
O sofrimento, seja físico ou emocional, comporta-se como um alarme biológico que insiste em tocar no volume máximo mesmo quando já compreendemos perfeitamente a mensagem. Chega um momento em que não queremos mais entender a dor; queremos apenas que ela cesse.
É justamente aí que nasce uma fantasia silenciosa: retirar temporariamente o inquilino da casa — a consciência — para que a biologia faça seu trabalho em paz. Como se o corpo pudesse entrar em modo de manutenção enquanto a mente aguardasse, em segurança, o momento de retornar.
Assistir à própria reconstrução em tempo real é um peso duplo. Sofremos a lesão e, simultaneamente, o sofrimento psicológico de habitar um corpo transformado em campo de batalha. Se fosse possível simplesmente flutuar para fora de nós mesmos e voltar apenas quando tudo estivesse cicatrizado, talvez o processo fosse infinitamente menos angustiante.
O escritor britânico C. S. Lewis descreveu algo semelhante ao afirmar:
“A dor mental e a dor física partilham da mesma característica: o sofrimento isola.”
Quando a dor nos aprisiona dentro da própria pele, a ideia de colocar a consciência em stand by deixa de parecer uma fuga e passa a soar como uma sofisticada estratégia de autopreservação.
Apesar de um congestionamento e um leito hospitalar representarem experiências incomparáveis em intensidade, ambos compartilham um mesmo mecanismo psicológico. O que nos desgasta não é apenas a imobilidade, mas a atividade incessante da mente. O cérebro insiste em calcular o tempo perdido, antecipar o sofrimento futuro e reconstruir cenários que jamais acontecerão, consumindo energia em um esforço tão intenso quanto improdutivo.
Se pudéssemos agir como um atendente que coloca uma ligação em espera enquanto o sistema resolve o problema, talvez encontrássemos algum descanso. Bastaria um clique. A consciência silenciaria por alguns instantes e retornaria quando o percurso terminasse, a dor diminuísse ou a vida retomasse seu curso.
Essa fantasia revela algo curioso sobre a condição humana. Em uma sociedade que exige atenção permanente, produtividade constante e disponibilidade ininterrupta, talvez a maior utopia contemporânea não seja viver mais ou sofrer menos.
Talvez seja apenas poder descansar da própria consciência por alguns instantes.
