Assisti recentemente o filme da Netflix Fome de Sucesso, que apesar de ter como temática a alta gastronomia, algo que me encanta, não me chamou atenção exatamente por isto. Além da técnica apresentada do universo gastronômico, o filme mostra a desigualdade social existente, principalmente entre os comensais abastados, os funcionários dos restaurantes e o abismo com a realidade de dificuldades das pessoas economicamente desfavorecidas. Tudo isto é evidenciado no trecho do filme que aparece a frase “Os pobres comem para acabar com a fome, mas quando você tem mais do que o suficiente para comer, sua fome não acaba”.
O filme é um drama tailandês que narra a rotina de abusos sofridos por uma jovem cozinheira nas mãos de um chef renomado e sem escrúpulos. O Chef Paul é extremamente desrespeitoso com seus assistentes, tornando a cozinha um ambiente hostil e competitivo. Talvez haja exagero em representar o ambiente dentro de um restaurante estrelado.
O pano de fundo da narrativa é a satisfação do ego pessoal e o desejo por riqueza e status, no decorrer da trajetória de uma jovem cozinheira e aspirante a Chef que trabalha em um pequeno e simples restaurante familiar servindo refeições populares, e depois de receber um convite muda radicalmente sua vida ao se juntar a uma renomada equipe culinária chamada Hunger.
Todavia, resolvi escrever este artigo devido ao fato de perceber que existe uma relação entre a jornada de conhecimento e de desafio da protagonista do filme, que muitas vezes extrapola à sua régua moral e ética para alcançar o tão desejado sucesso, com o protagonista do Livro Fausto, poema dramático do Alemão Goethe, pelo menos na minha opinião. Esta célebre adaptação de uma história popular se foca na figura de Henrique Fausto, um homem que é extremamente inteligente, mas, ainda não possui tudo aquilo que quer. Ele permanece insatisfeito até o dia em que conhece um demônio chamado Mefistófeles. Após fazerem um acordo, Fausto acaba vendendo a própria alma, a troco de ver seus desejos realizados.
As duas obras dialogam no sentido de que ambas exploram a busca pelo sucesso e o preço que se paga por ele. No filme “Fome de Sucesso”, a jovem cozinheira enfrenta abusos para alcançar o sucesso na carreira culinária. Já em “Fausto”, o protagonista vende sua alma ao demônio em troca de conhecimento e experiências. Ambas as histórias mostram personagens dispostos a fazer sacrifícios para alcançar seus objetivos, como também levantam questões sobre o custo dessas escolhas.
A História da humanidade é indissociável à busca da riqueza, sucesso e satisfação pessoal em detrimento do que verdadeiramente nos preenche enquanto seres humanos, nossa espiritualidade geralmente é deixada de lado em nome desta busca. Nos Estados Unidos existe um hospital para pacientes terminais abastados. Enfermeiras escreveram um livro sobre a experiência dos últimos momentos com eles. Foram uníssonas em dizer que todos se arrependiam em terem sido superficiais e não dedicados aos afetos e sentimentos, que de fato deveriam ter sido a importância em sua vida, pois as riquezas e bens ficariam aqui neste plano terreno.
Talvez isto justifique vermos “bem sucedidos” tomando antidepressivos ou remédios para dormirem. Isto de fato é ser bem sucedido? Não conseguir passar os dias livre de remédios e não dormir sem os mesmos é sinônimo de sucesso? Somos geralmente impelidos em conseguiu o que a sociedade recomenda, mas não o que precisamos, e, com o advento das redes sociais, isto se tornou mais premente, infelizmente. Talvez violar a consciência traga a necessidade de desligar a mente de alguma forma, principalmente quando a paz e tranquilidade de pensamentos não o permite.
