Fui à Feira da Prata num destes domingos rotineiros, e, lá, encontrei uma pessoa sorridente para mim, rosto familiar, porém alguém que não reconhecia de onde e muito menos seu nome. Se aproximou de mim e eu comentei com Valério, meu amigo que sempre me acompanha nas desventuras cotidianas, mais um que vem pedir dinheiro. Ledo engano, o mesmo só queria agradecer por eu o ter ajudado com um emprego anos antes, algo que lhe tirou de uma situação de dificuldades para se manter e aos seus.
Passado o momento, fiquei a remoer sobre o acontecido e tentei buscar internamente onde perdi a crença de que as pessoas podem se aproximar por algo positivo e não por necessidade ou conveniências. Fiquei com a sensação de que perdi a capacidade de reconhecer o sorriso sincero do cinismo. Mas, percebi que por ter passado por grandes transformações e perdas em tempos difíceis, terminei me moldando à necessidade de enfrentá-las e isto geralmente nos torna mais duros e menos suscetível a sensibilidade. Daí, foi um pulo para que começasse a refletir sobre a Ingratidão.
Num mundo onde ser ingrato é lugar comum, alguém ser grato nos surpreende. Que triste fim nos levará a seguir nessa trilha onde valores que deveriam ser habituais, parecem cada vez mais distantes nas relações interpessoais. Até recentemente a Pandemia do Covid 19 aflorou um sentimento muito forte de solidariedade, infelizmente após o isolamento parece-me que as pessoas voltaram a ser como dantes. Ou, estou deixando aflorar dentro de mim um pensamento Shakespeareano?
Não sei, mas como citei Shakespeare, é bom lembrar de que a ingratidão é um tema recorrente na obra dele, sendo frequentemente retratada como um comportamento moralmente repreensível. Em muitas das suas peças, Shakespeare mostra como a ingratidão pode ser um sinal de fraqueza de caráter e como pode levar a consequências trágicas.
Um exemplo disso pode ser encontrado em “Rei Lear”, cujo personagem principal é traído por suas próprias filhas, que o deserdam e o deixam à mercê dos elementos. O rei Lear é um homem que sempre demonstrou grande amor e generosidade para com suas filhas, mas, é traído pela ingratidão delas, que se voltam contra ele assim que conseguem o que querem.
Em outra peça famosa, “Júlio César”, o personagem principal é assassinado por um grupo de conspiradores liderados por seu amigo mais próximo, Brutus. Apesar de César ter concedido muitas honras e favores a Brutus, este se junta aos conspiradores por razões políticas, mostrando uma total falta de gratidão e lealdade.
Em “Hamlet”, o personagem principal é traído por sua própria família, que conspira para tirá-lo do trono e tomar o poder para si mesmos. Hamlet é um homem profundamente grato e leal, mas é vítima da ingratidão daqueles que deveriam estar ao seu lado.
Em suma, segundo Shakespeare, a gratidão e a lealdade são virtudes importantes que devem ser cultivadas e valorizadas, e ao mesmo tempo a ingratidão corrói as relações humanas, sejam elas de natureza pessoais, profissionais ou políticas.
Este seria um comportamento típico dos dias atuais, quando prevalece a cultura do individualismo? Talvez, percebo que algumas pessoas se sentem menos inclinadas a demonstrar gratidão ou reconhecimento pelo que recebem, seja por motivos de egoísmo, índole questionável, falta de empatia ou até mesmo por terem sido criados em um ambiente onde a gratidão não era valorizada.
No entanto, é importante lembrar que a gratidão é uma virtude que pode ser cultivada e praticada, e que demonstrar gratidão pode ser benéfico tanto para aqueles que a expressam quanto para aqueles que a recebem. A gratidão pode ajudar a fortalecer relações e melhorar a saúde mental e emocional. Portanto, acredito ser importante valorizá-la e incentivá-la principalmente na educação das gerações vindouras.
Nunca devemos deixar de acreditar que o conhecimento adquirido pode mudar o indivíduo e o seu entendimento do mundo e assim influenciar suas decisões futuras. Depois do ocorrido, fiquei convicto de que as minhas idas à Feira da Prata nos domingos, não seriam, mas as mesmas e muito menos eu seria o mesmo. Ou como escreveu Heráclito de Éfeso “Nenhum homem pode banhar-se duas vezes no mesmo rio, pois na segunda vez o rio já não é o mesmo, nem tão pouco o homem!”

Parabéns pelo Artigo amigo.
Show de texto. A generosidade e a gratidão nos aproxima.
Parabéns! Como sempre arrasando! ????????????????????