O fim de expediente no Anexo I do Palácio do Planalto tem um peso próprio. Não é apenas o cansaço físico; é a gravidade de um dia inteiro respirando o ar denso das decisões que movem o País. Ao cruzar a saída, a luz de Brasília — aquele dourado que só o cerrado sabe fabricar — lavava as colunas de concreto. Eu, porém, pouco via. Meus olhos seguiam o horizonte, mas a mente permanecia presa aos fios invisíveis de uma ligação que se estendia além do horário.
Meus passos, ritmados e rápidos, cortavam o pátio. Os fones de ouvido eram meus aliados, meu escudo particular. Naquele instante, não eram apenas tecnologia, mas ferramenta de sobrevivência: uma barreira necessária contra o ruído da capital e o peso das responsabilidades. Eu caminhava dentro de uma bolha cuidadosamente selada, onde o som externo era filtrado e substituído por uma voz distante, criando um microclima de isolamento em pleno espaço público.
Ao descer da parte alta do Plano Piloto, o mundo exterior finalmente rompeu o bloqueio. A ligação terminou com um clique seco. No breve silêncio que antecedeu a invasão do ruído urbano, ouvi o veredito de um grupo de transeuntes:
— “Tá de fone, tá de fone… é antissocial.”
A frase caiu como pedra em lago parado. Imediatamente, a mente começou a decifrar o impacto. Primeiro veio o peso da ofensa percebida por eles. Para quem observava de fora, minha bolha não era proteção — era rejeição deliberada.
Lembrei-me da provocação de José Saramago: “Penso que todos ficamos cegos. Cegos que veem. Cegos que, vendo, não veem.” O fone de ouvido havia se transformado no meu Muro de Berlim portátil: uma fronteira invisível, porém intransponível, que eu carregava comigo para dividir o mundo entre “eu” e “os outros”. Eu via aquelas pessoas, mas, blindado pelo som, não as enxergava de fato. Para elas, meu silêncio era a declaração tácita de que nada ali merecia atenção.
Foi então que me atingiu o paradoxo da conexão que define nosso tempo. Ali estava eu, julgado como “antissocial” justamente por estar sendo intensamente social. Eu dialogava, negociava, resolvia conflitos com alguém a quilômetros dali. Ainda assim, para quem compartilhava o mesmo chão e o mesmo ar comigo, eu era apenas um fantasma eletrônico. Presente no digital, ausente no físico.
Talvez seja assim que a sociedade contemporânea se organize: cada um transportando seu próprio muro, habitando sua bolha particular, orbitando os mesmos espaços sem jamais colidir. O “antissocial” ali não era um defeito de caráter, mas o sintoma de um tempo em que estar conectado a tudo frequentemente significa não estar disponível para ninguém ao alcance do toque.
Segui caminho e, por um instante, guardei os fones no bolso. O silêncio de Brasília é vasto. E, às vezes, é preciso derrubar o muro para perceber que, entre uma ligação e outra, o mundo ainda espera que a gente simplesmente… ouça.
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