Este é o meu primeiro Carnaval em Brasília, e a segunda-feira já trazia no corpo o acúmulo de vários dias de folia — incluindo o Monobloco, um dos meus favoritos. Mas segunda o ritmo foi outro. Em vez da multidão, escolhi o encontro com meus amigos daqui, os “Bests”. Passamos o dia no que chamo de fuga do caos: um almoço que se estendeu, regado a chopp, risadas e aquela atualização necessária sobre a vida alheia.
A ideia inicial era esticar para algum bloco depois, mas o tempo foi passando e, com ele, veio a morgação. A minha vontade de enfrentar o empurra-empurra não encontrou eco nas amigas que iriam comigo. Decidimos que a nossa noite de Carnaval seria exatamente aquilo: amizade, conversa e o prazer de não ter pressa. Saímos para jantar ainda imersos naquela atmosfera leve de quem passou o dia rindo.
Foi no elevador, a caminho do restaurante, que a vida resolveu nos entregar uma cena, no mínimo, inusitada. Um desconhecido entrou e, com um ar de quem protagonizava uma performance cult, anunciou que deixaria o “destino” decidir sua parada. Cruzou os braços e não apertou botão algum. Ali, naquele cubículo de metal, assisti a algo quase surreal: ele aguardava uma revelação mística de um sistema de cabos e polias já programado pelos dedos de quem passara antes. Era uma tentativa de improviso em um palco totalmente mecânico e planejado; a liberdade de quem, no fundo, apenas espera que os outros decidam o seu caminho.
Como escreveu Guimarães Rosa:
“O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”
Talvez faltasse ao filósofo de elevador a coragem de apertar o próprio botão, preferindo o conforto de um acaso ensaiado.
Ao chegar em casa, ainda com a energia do dia vibrando — mas sem sono —, resolvi prolongar a noite do meu jeito. Coloquei uma música e abri uma garrafa de vinho. Ali, o jogo mudou. Diferente do rapaz no elevador, eu detinha o controle. A taça, servida com precisão, era meu convite para retomar as rédeas do tempo. O vinho não precisa de frases de efeito, não exige sorrisos sociais, não interrompe o fluxo do pensamento. Ele apenas permanece. Nessa permanência rubra, entendi que estar só, depois de um dia inteiro de trocas, é a forma mais refinada de reencontro.
Existem mesas cheias onde o eco é maior que o riso. Há brindes feitos por hábito e conversas que servem apenas à vaidade de quem fala — o que, felizmente, não é o caso do nosso grupo. Em um insight, percebi que a taça solitária, quando sincera, preenche muito mais do que certas companhias.
O vinho, sozinho comigo e com a melodia que escolhi, não pede encenação. Ele aceita minha pausa, meu cansaço e meu silêncio. Degustar a sós não é isolamento; é celebração. É entender que a melhor companhia começa na própria presença. No fim das contas, o luxo verdadeiro não é esperar que uma porta se abra por um golpe de sorte, mas saber exatamente em qual andar decidimos descer para brindar.
Para os que buscam o épico no poço do elevador, resta o vácuo da espera. Para mim, ao fim da noite, restaram o vinho, o verso e o vagar.
Alguém aperta para eles, por favor?
