Depois de um dia inteiro travando batalha contra variáveis e contra a estrutura rígida de uma dissertação de mestrado em Matemática, o corpo pede trégua e a mente exige o caos organizado de um happy hour. Em Brasília, o destino foi o Boteco Boa Praça. Ali, entre um chope e outro, meu amigo, Denis, comentou como o mundo parece ter mudado de eixo depois da pandemia.
— “A gente se digitalizou à força, né?”
Concordei. O confinamento não apenas alterou hábitos; moldou identidades para caberem no formato 9:16 das telas.
A conversa avançou para os efeitos das redes sociais sobre nossos comportamentos. Contei a ele sobre uma pessoa da nossa Campina Grande — o Denis também é de lá — que eu acompanhava há tempos no Instagram. Certo dia, na fila da padaria, alguém me tocou com entusiasmo. Eu não fazia ideia de quem era. Diante do meu desconcerto, veio a pergunta inevitável:
— “Não lembra de mim?”
O constrangimento era real. Eu realmente não a reconhecia. Até que surgiu a chave:
— “Nós nos seguimos no Insta! Eu sou a…”
Putz. Eram duas pessoas distintas. Não se trata de juízo de valor sobre estar melhor ou pior do que postava; o ponto é que a pessoa concreta era uma estranha diante da construção digital que eu conhecia. Foi nesse hiato entre o pixel e a pele que o rigor acadêmico cedeu espaço a uma lembrança súbita, vinda de uma série da Netflix: o chamado “complexo de boneca”.
A matemática busca coerência e precisão lógica. Mas, quando a vida tenta imitar uma perfeição estética contínua, cria uma prisão. Viver sob esse estigma é como habitar uma redoma de vidro: o mundo vê você, mas não o alcança. As redes, para alguns, funcionam como um multiverso particular — aquele que reflete como desejam ser vistos, ainda que distante de quem realmente são. É a existência reduzida à estética, onde o “ser” é engolido pelo “parecer”.
Como analisou Zygmunt Bauman, vivemos tempos líquidos, nos quais identidades se tornam performances moldadas ao olhar do outro. A vitrine substitui o encontro.
O irônico é que essa “realidade editada” tem uma fragilidade quase cômica. Gastamos horas curando o feed para parecer um editorial constante, enquanto fora do enquadramento a pia está cheia de louça — e confesso: tenho verdadeira ojeriza a pratos sujos — e o boleto vence amanhã. A vida real não respeita filtros.
Postamos a “boneca”, mas somos tragicamente humanos. O medo de sermos vistos sem o ângulo ideal ou a luz favorável talvez seja o grande fantasma desta era. Tornamo-nos curadores de uma exposição pessoal que pode sofrer uma invasão de realidade a qualquer instante. O indivíduo passa a assistir à própria vida, moldando-se para caber nas expectativas alheias.
Embora essa pressão historicamente recaia com mais peso sobre as mulheres, hoje ela atravessa a todos, transformando-nos em produtos de nós mesmos.
Se a matemática ensina que o equilíbrio é fundamental, a vida mostra que a liberdade nasce do desalinho. Romper com esse complexo exige trocar a estática da perfeição pelo movimento da imperfeição consciente. Uma boneca é admirada por sua imobilidade; um ser humano só é inteiro quando assume o risco de ser falho, barulhento e autor da própria história.
Na matemática, 1 + 1 é sempre 2.
Na vida real, precisamos do direito de ser um resultado imprevisível.

Ficou top! É assim mesmo. Menos filtros e mais verdades.
Voltamos ao mito da caverna em todos os aspectos
???????????????????????????????? Excelente reflexão!