Este final de semana recebi alguns amigos paraibanos — Campina Grandenses como eu — aqui em casa, em Brasília. Obviamente, falamos da proximidade do São João; para quem é nordestino e de Campina Grande, mal termina o Carnaval e já começamos a contar os dias para o mês de festa no Parque do Povo. Entre uma conversa e outra, me transportei ao passado e lembrei de uma madrugada agradável entre pessoas queridas. Vou tentar contar para vocês como foi essa aventura, com a máxima fidelidade que o tempo me permita.
O som do palco principal invadia a Barraca A Pomba Vuuôôuu, fundindo-se ao burburinho de sons e ritmos que só o Maior e Melhor São João do Mundo consegue entregar. Era 1h da manhã. O sereno de Campina Grande já batizava a pista com aquele verniz da madrugada, enquanto o cheiro de festa — uma mistura de concreto, gente e alegria — tomava conta do ar.
A Pomba Vuuôôuu sempre foi o nosso refúgio, o epicentro onde todas as tribos se esbarravam e se abraçavam. Era o ponto de encontro sagrado de figuras alternativas, intelectuais, artistas, músicos, estudantes universitários, sindicalistas, militantes de movimentos sociais, jovens e, claro, nós — os professores que, entre uma conversa e um gole, buscávamos nos reenergizar no chão daquele espaço efusivo e cheio de histórias.
Sentei-me à mesa com o meu amigo colombiano, Gustavo Castellon. Ele observava o movimento com aquele olhar estrangeiro, tentando decifrar o sagrado mês de junho no Nordeste e, particularmente, o melhor período da nossa cidade. Como de costume, chamei o garçom e pedi o meu clássico: uma dose e um inhame com carne de sol. Sabia, com a precisão de um teorema, que ele voltaria com a nossa imbatível macaxeira com carne de sol — ali o inhame era uma lenda urbana, mas a macaxeira era a realidade que alimentava nosso corpo.
Enquanto isso, Gustavo tentava o impossível. Com seu sotaque carregado, ele pedia um “hurum”. O garçom franzia a testa, pedia para repetir, e Gustavo insistia no seu “hurum” até a exaustão — afinal, a sede da madrugada não espera. Só quando intervim, explicando que o “hurum” era, na verdade, uma dose de rum, é que ele finalmente pôde saborear seu líquido precioso.
Antes mesmo de a primeira rodada chegar, ele me lançou a pergunta clássica: qual era a boa da madrugada?
Respirei fundo e dei aquela pausa de ator — o silêncio exato de quem conhece o tempo da comédia e os compassos da vida.
— Não sei. Ainda não estou bêbado… vou começar agora.
Risadas. Copos para o alto. A madrugada em Campina acabava de assinar o veredicto.
Foi quando a temperatura do ambiente mudou. No vaivém frenético de corpos, surgiu uma amiga radiante, como se tivesse sido esculpida pelo sol da Paraíba — e olhe que aqui ele nasce primeiro. Ela deslizou até a nossa mesa com um sorriso capaz de interromper o forró mais animado do Parque do Povo.
— Oi… qual é a piada de hoje? — perguntou, já puxando a cadeira e o destino para perto de nós.
Tomei um gole generoso do meu drink, busquei o horizonte como quem pede cumplicidade ao universo e, com o cinismo elegante de quem já colecionou muitas madrugadas, disparei:
— Fui ao médico e confessei: “Doutor, meu amigo colombiano quer que eu pare de beber.”
O médico me encarou e perguntou: “E você gosta do seu amigo?”
Pensei bem e respondi: “Gosto… mas não ao ponto de ficar sóbrio perto dele.”
Ela riu. Gustavo gargalhou. Até a sanfona, lá no fundo da ilha de forró, pareceu abrir um fole de satisfação.
E ali, mergulhado naquela mistura de bebidas, suor, poeira e gente perigosamente maravilhosa de viver, entendi o óbvio: o São João de Campina não é feito apenas de músicas, danças e conversas, mas de personagens que têm a coragem de habitá-lo intensamente.
Como bem dizia Ariano Suassuna:
“Arte para mim não é produto de mercado. Podem me chamar de romântico. Arte para mim é missão, vocação e festa.”
Naquela noite, a nossa missão era exatamente essa: a celebração pura.
Algumas noites ficam suspensas no tempo, apenas esperando alguém corajoso o suficiente para resgatá-las.
E eu nem imaginava que, em algumas delas, esse alguém seria eu.

Lindo texto!