O mês das mulheres me provocou a reassistir ao filme Shirley Valentine. Mas antes mesmo de apertar o play, já era impossível ignorar o clima que atravessa este março. Nas últimas semanas, a imprensa brasileira voltou a ser tomada por relatos de violência doméstica e feminicídio — histórias que revelam agressões físicas, sexuais, psicológicas e simbólicas contra mulheres e meninas que tentavam simplesmente exercer autonomia sobre suas próprias vidas.
Esse movimento de visibilidade não acontece no vazio. Tenho a impressão de que atravessamos um momento cultural delicado e necessário: uma fase em que a sociedade começa, ainda que tardiamente, a olhar com mais atenção para a violência de gênero e para as estruturas que a sustentam.
Essa inquietação contemporânea ecoa uma história muito mais antiga. O próprio 8 de março — que atravessa este mês como um marco simbólico — nasce das mobilizações de mulheres operárias no final do século XIX, que reivindicavam salários dignos, jornadas humanas de trabalho e participação política. Mais de um século depois, os campos de luta mudaram, mas a raiz da disputa permanece: a autonomia feminina continua sendo um território de tensão social.
A socióloga Heleieth Saffioti já alertava, décadas atrás, que a violência contra mulheres não pode ser compreendida apenas como desvio individual de comportamento, mas como expressão de uma estrutura patriarcal que organiza relações de poder dentro da sociedade.
Em análises mais recentes, a antropóloga Rita Segato observa um paradoxo perturbador: muitas vezes, a violência aumenta justamente quando as mulheres ampliam sua liberdade econômica, profissional e afetiva. Quando a autonomia feminina cresce, alguns homens percebem essa mudança como ameaça à ordem tradicional e respondem com violência como tentativa de restabelecer controle.
Foi com esse pano de fundo social ressoando na cabeça que voltei ao filme.
Shirley é a personificação da mulher que, após décadas em uma rotina que a silenciava, decide abandonar as paredes da cozinha e um casamento morno para se reencontrar. Tanto na época em que o vi pela primeira vez quanto agora, ela me ensina que o abuso nem sempre deixa marcas visíveis; muitas vezes ele se instala na invisibilidade cotidiana, na anulação lenta e sistemática dos desejos do outro.
Talvez seja por isso que Simone de Beauvoir continua tão atual quando escreve:
“Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.”
Ainda com as inquietações do filme reverberando, saí para almoçar com duas amigas. Entre uma conversa e outra, mergulhamos em temas que pareciam ecoar tanto o noticiário quanto a teoria: feminicídio, relacionamentos abusivos e o silêncio corrosivo do gaslighting.
Esse diálogo acabou nos levando ao CCBB, em Brasília, para assistir à peça “Nós ou Ninguém Podia Ouvir os Olhos Dela”.
No palco, vi a história de um casal que, embalado pelo jazz, investigava as entranhas da violência. Ali, o corpo não era apenas recurso cênico — era protagonista absoluto, gritando aquilo que as palavras não conseguiam dizer.
Entre momentos de afeto e tensão, a montagem expunha algo inquietante: a naturalização da agressividade nas relações íntimas.
Saí da peça profundamente impactado pela performance dos atores, especialmente pela atriz. Mesmo sem pronunciar uma palavra, seus gestos e sua expressão facial transbordavam frases inteiras. Era como se o corpo dissesse aquilo que a voz, muitas vezes por medo ou exaustão, já não consegue articular.
Foi impossível não lembrar do que tantas pesquisadoras vêm apontando: a violência raramente começa no golpe; ela nasce muito antes, na erosão cotidiana da autonomia. Essa realidade machista, no entanto, nem sempre aparece em tragédias explícitas. Muitas vezes ela se infiltra nas frestas do cotidiano — inclusive na forma como os próprios homens são educados a compreender seu lugar no mundo.
É algo que aparece de forma quase irônica na série Machos Alfa, especialmente na figura de Santi Peralta. Santi é o retrato do homem que, de repente, percebe que suas certezas antigas perderam validade. Ele tenta, entre tropeços e resistências, entender o que significa existir como homem fora da lógica da dominação.
A vulnerabilidade de Santi revela algo importante: o machismo não é apenas um sistema de opressão contra as mulheres; ele também funciona como uma armadura pesada que deforma quem a veste, impedindo conexões humanas genuínas.
Talvez seja exatamente esse o ponto que Rita Segato sugere quando afirma que a violência de gênero não é apenas um conflito entre indivíduos, mas um mecanismo de reafirmação de poder em contextos em que hierarquias tradicionais começam a ruir. Quando essas estruturas são questionadas, alguns respondem com agressividade para preservar uma identidade que já não encontra mais sustentação.
Enquanto as luzes do palco se apagavam, outras se acendiam dentro de mim.
Reconheci naquela encenação e nas telas fragmentos da minha própria história — ecos de relações passadas e de situações que presenciei ao longo da vida. Embora nada do que vivi tenha atingido a intensidade extrema da peça, os padrões estavam lá, muitas vezes escondidos na banalidade do cotidiano. Percebi então que se enxergar como um machista em desconstrução não é adotar um rótulo conveniente. É aceitar um processo permanente de vigilância interior e honestidade brutal.
Hoje compreendo, com uma clareza que a arte ajudou a consolidar, que respeito e igualdade não são concessões masculinas nem gestos de boa vontade. São fundamentos mínimos de uma humanidade compartilhada.
Talvez por isso iniciativas institucionais também se tornem fundamentais. A criação do Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios, em 2023, e o recente Pacto Brasil entre os Três Poderes, apresentado em 2026, representam tentativas de enfrentar o problema não apenas no plano simbólico, mas na estrutura concreta das políticas públicas.
Como diretor de Articulação Governamental, acompanho de perto esses esforços de coordenação entre União, estados e municípios, que passam também pela atuação da Secretaria de Relações Institucionais, sob liderança da ministra Gleisi Hoffmann. São iniciativas que lembram algo fundamental: enfrentar a violência de gênero é um compromisso institucional da democracia.
No fim das contas, percebi que o filme, a peça, as conversas e até mesmo as notícias que atravessam este mês não foram experiências isoladas.
Foram convites sucessivos para encarar o espelho.
E reafirmar um compromisso pessoal com uma evolução que é, acima de tudo, silenciosa, necessária e diária.
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