O antigo relógio de parede, testemunha silenciosa de mais de 150 anos em minha família, transcende a mera função de marcar as horas. Ele é um símbolo tangível do tempo que atravessa gerações. Não é apenas um objeto de decoração, mas o coração pulsante — mesmo agora em seu silêncio — de uma história contínua. Inúmeras vidas, decisões e rotinas de meus antepassados foram guiadas pelo compasso constante do seu tique-taque.
Gerações — meus avós, pais, tios, primos, irmãos, sobrinhos e, por fim, eu — viram horas de suas existências serem contadas por ele, esse mestre do tempo que observou casamentos, nascimentos e despedidas.
Foi nesse cenário de profunda herança afetiva e cultural que, em conversa com uma pessoa muito querida, percebi num lampejo — ou seria um insight? — que o relógio estava parado. Coincidentemente, ele marcava a hora exata: 8h40, como ela confirmou. O que parecia uma simples falha mecânica transformou-se, num instante, em uma metáfora filosófica perfeita.
Eu havia dado corda no dia anterior, mas não notara seu repouso. E esse descanso se alinhou, por um instante fugaz, com a verdade universal do tempo. O ditado se materializou diante de nós: “Um relógio parado está certo pelo menos duas vezes ao dia.” Comentei isso no tom leve que costumo usar — talvez para quebrar o silêncio, talvez num impulso cômico. O mais incrível é que, justamente naquele momento, conversávamos sobre o tempo pretérito, mas também sobre o devir, e sobre como ambos moldariam nossas vidas.
Essa precisão momentânea de um objeto que falhou em sua função essencial carregava, percebi, uma lição humana poderosa. A falha do relógio que, paradoxalmente, se torna acerto, espelha nossa própria experiência da temporalidade — subjetiva, íntima, afetiva — como tão bem observou Marcel Proust: “Os dias talvez sejam iguais para um relógio, mas não para um homem.”
Esta diferença nos lembra que, enquanto a máquina mede o tempo em linha reta, nós o vivemos em memórias, emoções e pausas.
Assim como o relógio, preso em um único instante, não está constantemente certo, mas tampouco eternamente errado, nós, seres humanos, somos feitos de acertos e falhas. Ninguém é um mecanismo em funcionamento perfeito, livre de hesitações ou incertezas. Em nossa complexidade, atravessamos pausas, desvios e períodos em que nos sentimos totalmente “parados” ou “equivocados”.
No entanto, o relógio ancestral nos ensina que ninguém é tão fundamentalmente incorreto a ponto de não ter seus instantes de precisão. Mesmo em períodos de dúvida, descrença ou suspensão, há momentos em que nosso suposto “erro” se alinha com o que nos coloca novamente nos trilhos. O valor de uma vida não reside em acertar o tempo todo, mas na capacidade — inevitável e surpreendente — de reencontrar a direção, assim como o velho relógio o fez, casualmente, às 8h40.
A beleza da imperfeição humana reside justamente na nossa capacidade de sermos, às vezes, o “relógio parado”. São as falhas, as cicatrizes e os desvios que compõem a textura única da nossa jornada. Ao contrário das máquinas, programadas para a precisão contínua, nossa essência floresce na vulnerabilidade: é na admissão do erro que nasce a humildade, e na aceitação das nossas limitações que descobrimos a força para recomeçar.
A perfeição é estéril; a imperfeição, fértil — terreno onde brotam empatia, resiliência e a mais profunda autenticidade do ser.
Honrar essa condição é honrar a vida em sua totalidade. E o relógio, mesmo em seu silêncio, segue nos ensinando sobre o tempo, a família e a extraordinária beleza de sermos simplesmente humanos.
Quando foi a última vez que você percebeu que um erro te alinhou ao lugar exato onde você precisava estar?

Boa
Gostei. Com ou sem marcação, o tempo passa…
Que lindo!????