A vida, por vezes, se manifesta na velocidade com que trocamos de paisagem. Meu último feriado foi uma prova disso: uma geografia de afetos traçada em poucos dias. Comecei em Fortaleza — sobre essa cidade escreverei em outro artigo, até porque vivi boas histórias com pessoas que, além de queridas, são agradáveis e instigantes — mergulhado em reencontros. De lá, cruzei o asfalto dirigindo até a minha querida Campina Grande para uma pausa necessária: rever amigos e familiares e gravar reels para a Localiza Seminovos. Encerrei a jornada em João Pessoa. No dia seguinte, voltei a Fortaleza e, de lá, retornei a Brasília, minha morada. Na estrada que une esses pontos, o cansaço da correria era apenas pano de fundo para a intensidade dos encontros.
Foi em João Pessoa, porém, que o movimento físico deu lugar a um mergulho introspectivo. Encontrei uma pessoa querida — uma mágica cujos truques pareciam não funcionar contra o peso da própria realidade. Entre goles e uma conversa longa que atravessou a noite, percebi que ela carregava dores que o tempo ainda não havia conseguido cicatrizar. Eram sombras que a paralisavam, criando um cerco de receios que a impedia de experimentar novas rotas. Estava ali, presente em corpo, mas com a vida pausada, à espera de um futuro sem riscos ou arestas.
Em certo momento, o tom da conversa se aprofundou. Ela me olhou com a honestidade de quem está exausta pelos desencontros da vida e perguntou:
— “Como você espera que eu simplesmente siga em frente, se cada nova tentativa parece carregar o peso das minhas desilusões? É fácil falar em novas possibilidades quando não se tem medo de cair de novo nas mesmas situações. ”
Ouvi com atenção e respondi que não se tratava de ignorar as situações, mas de aceitá-las como parte do viver. O medo é o sintoma de que estamos vivos; a paralisia, por outro lado, é a escolha de morrer aos poucos. Foi então que olhei para ela e disse, quase como um mantra que carrego comigo:
— segue vida.
Ela me encarou, confusa, como se eu estivesse oferecendo uma resposta simplista para um problema complexo. Expliquei, então, que, para mim, essas duas palavras representam uma forma de praticar o amor ao destino. “Segue vida” não é desprezo pelo sofrimento, nem esquecimento forçado. É o reconhecimento de que a caminhada não para porque um pneu furou. Pode até ser preciso parar para consertar — mas não por tempo demais, porque a vida não espera.
Seguir é o único modo de atravessar a dor, transformando o peso que nos ancorava em movimento. Se a vida é fluxo, permanecer no receio é tentar represar o oceano com as mãos; dizer “segue vida” é mergulhar na correnteza, aceitando que as mesmas águas que nos golpeiam são as que nos conduzem adiante. Ressaltei que o movimento ao lado das pessoas erradas é caminho sem rumo; mas o movimento com as pessoas certas oferece a confiança necessária para seguir, mesmo sem saber exatamente para onde.
Nesse instante, veio-me à mente a provocação de Friedrich Nietzsche — o conceito de Amor Fati. Ele escreveu:
“Minha fórmula para a grandeza num ser humano é amor fati: não querer que nada seja diferente, nem para frente, nem para trás, nem em toda a eternidade. ”
Percebi, quase com surpresa, que já praticava esse princípio, mesmo sem o nomeá-lo. Sempre admirei Nietzsche, mas até então não havia conectado diretamente essa ideia ao meu modo de encarar o mundo. Senti-me, naquele momento, mais próximo dessa filosofia do que nunca — no sentido da superação.
A contraposição diante de mim era evidente. Praticar o Amor Fati não é um otimismo ingênuo, mas a coragem de dizer “sim” a tudo o que nos aconteceu. É compreender que a dor não é um desvio de percurso, mas parte essencial da nossa construção. Minha amiga, no entanto — e posso estar equivocado —, parecia negar esse destino. Ao temer novas feridas, acabava por negar a própria vida, pois viver sem a possibilidade do sofrimento é, em última análise, não viver.
Esse é, talvez, o grande nó górdio da alma humana. Quando o destino é percebido como um carrasco, a vida se transforma em sentença. Para ela, cada dor não era um aprendizado, mas um golpe injusto que lhe roubava a vitalidade.
A conversa me fez refletir sobre o quanto todos nós, em algum momento, tentamos “editar” nossa própria história. Queremos o brilho da vitória, mas rejeitamos a sombra da queda. O “segue vida” nos lembra que não podemos escolher apenas os fios dourados da tapeçaria; para amar a própria existência, é preciso aceitar também o fio que corta — com a mesma reverência que dedicamos ao que adorna.
Saí de João Pessoa e, durante o trajeto de volta a Fortaleza, permaneci imerso nesses pensamentos. A verdadeira mágica não está em apagar o passado ou em prever um futuro seguro. Já em Brasília, naquela noite, agradeci ao Criador pela oportunidade de viver essa travessia. Algo em mim havia se transformado. Ainda preciso digerir, compreender — mas que mudou, mudou.
A verdadeira arte está em abraçar o presente com tamanha intensidade que até as nossas dores se transformem em combustível. Afinal, o destino não nos acontece por acaso; ele é a matéria-prima que escolhemos amar — ou não.
Segue vida, sempre.

Brilhante!