Às 18 horas, o relógio não marca apenas o início de uma partida do Treze Futebol Clube; ele assinala um reencontro familiar. Para muitos, é apenas futebol. Para nós, é o território onde o tempo dobra sobre si mesmo, permitindo-me estar, simultaneamente, com os que se foram e com os que acabaram de chegar.
Desta vez, o cenário carregava um peso ainda maior: o Estádio Amigão. Ao cruzar aqueles portões, não entro apenas como torcedor, mas como alguém que conhece cada vírgula daquela estrutura. Guardo com zelo as lembranças do período em que fui Secretário Estadual de Juventude, Esporte e Lazer. Olhar para aquelas arquibancadas é recordar o esforço coletivo para manter de pé o palco que abriga os sonhos de uma cidade inteira. O Amigão é, para mim, um monumento à nossa identidade — onde Campina Grande se divide e, ao mesmo tempo, se reconhece entre o Treze e seu rival, o Campinense.
Ali, o ciclo familiar se renovou de forma emocionante. Olhei para o lado e vi meu sobrinho conduzindo o filho — meu sobrinho-neto. Um pequeno, de olhos curiosos. Ao vê-lo, fui transportado para os anos em que minha filha era a “pequena” da vez. Lembrei-me da inocência dela, ainda sem distinguir lances ou cores, confundindo o que acontecia em campo. Em meio ao estrondo da torcida, ela me puxou pela calça e perguntou, com a pureza de quem descobre o mundo:
— “Painho, qual é mesmo a cor do nosso time?”
Sorri, entendendo que ela não buscava apenas uma cor, mas o seu lugar naquele pertencimento. Ela não conhecia as regras, mas sabia que ali era o lugar onde o pai era feliz. É a mesma curiosidade que eu sentia, pequeno, de mãos dadas com meu irmão, Braulito. Fiz questão de repetir o gesto com minha filha e com meus sobrinhos, como quem passa adiante algo que não cabe em palavras.
Eduardo Galeano escreveu que “cada vez que um menino descobre o futebol, descobre também uma maneira de ser feliz”. Ao olhar aquele guri no Amigão, entendi que a felicidade também se herda.
O placar não foi o esperado: o Treze perdeu por 2 a 1. Mas o futebol, profético como a vida, ensina sobre a queda e o levante. Perder faz parte do jogo; o que define o campeão é a capacidade de aguardar o próximo embate de cabeça erguida e seguir adiante.
Saí do estádio com a alma leve. Se os médicos ortopedistas cuidaram do meu braço, se a fava e a carne de sol degustadas nos restaurantes e bares de Campina alimentaram o corpo, foi aquele guri no Amigão quem alimentou meu coração e minha mente. A tradição está viva. Braulito e meu pai sorriem de onde estiverem, pois sabem que, enquanto houver um descendente nosso vestindo o manto do Galo naquele “gigante” que ajudei a cuidar, nós nunca deixaremos de entrar em campo.
E no seu coração, qual é a tradição que nunca pode morrer?

Eu ainda tenho memórias desse dia.