A frase que sintetiza a essência do conhecimento — “Quem lê muito e viaja muito, muito vê e muito sabe”, de Miguel de Cervantes — ressoou de forma singular durante um recente evento em São Paulo. Após uma visita técnica ao Hospital Albert Einstein, decorrente da minha atuação no Ministério da Saúde como Coordenador-Geral de Políticas Remuneratórias do Trabalho na Saúde (experiência que também inspira a conclusão do meu MBA em Gestão Pública no Instituto Einstein), segui para o hotel.
Enquanto aguardava meus colegas, meu olhar cruzou com a imponência quase anacrônica de uma estante gigantesca, abarrotada de enciclopédias. Foi impossível não ser transportado ao passado: lembrei-me das incontáveis horas em que estudei por meio delas para compreender melhor o mundo. Meu tio, minhas tias e, especialmente, minha mãe sempre me incentivaram. Impressionava-me como eles, sem nunca terem feito uma viagem internacional, acumulavam vasto conhecimento global, alimentado apenas pela leitura.
Esse encontro fortuito, que remete a uma época de pesquisa minuciosa e palpável, tornou-se ponto de partida para refletir sobre a evolução do acesso ao conhecimento e sobre a capacidade humana de adaptação.
O contraste é imediato — e a clareza da lembrança, surpreendente. Quem viveu a era pré-internet carrega a memória física dos volumes, o cheiro das páginas e o esforço concentrado que o aprendizado exigia. O acesso ao saber era uma questão de mediação e confiança — dependíamos de professores, bibliotecários e, no meu caso, das figuras centrais da minha formação: meu tio Aluísio Lucena e minha mãe, Zélia Maia.
A informação tinha fronteiras: era finita, rigorosamente curada e revisada ao longo de anos. A busca era uma jornada quase cartográfica; o conhecimento, embora limitado, era profundo e exigia paciência, curiosidade e disciplina.
Guardo com carinho as discussões longas com meu tio e minha mãe — verdadeiras maratonas mentais, impulsionadas pela minha curiosidade insaciável. Havia uma qualidade tátil nesse aprendizado: o cheiro característico das enciclopédias, o fascínio das ilustrações, o peso reconfortante do livro nas mãos. Abrir aquelas páginas era sempre um ato de descoberta, a sensação de que um novo mundo de ideias estava prestes a se revelar.
Hoje, a realidade é oposta: vivemos em um universo digital em constante expansão — a “internet de tudo” — onde a informação não apenas flui, mas inunda. A busca deixou de ser uma jornada e se tornou um clique instantâneo. Mais recentemente, esse processo ganhou um novo e poderoso agente: a Inteligência Artificial (IA).
A IA, com seus modelos de linguagem avançados, não apenas organiza e apresenta informações, mas também as processa, sintetiza e, muitas vezes, as transforma em conhecimento personalizado. Age como uma “nova enciclopédia”, capaz de oferecer respostas imediatas, reduzindo drasticamente o tempo de pesquisa. Como já observam especialistas, essa revolução está reconfigurando o consumo de informação das novas gerações, que passam a preferir as sínteses instantâneas em detrimento das fontes colaborativas tradicionais, como a Wikipedia.
O paralelo entre a enciclopédia física e a IA não se limita à velocidade ou à quantidade de informação — trata-se, sobretudo, de uma transformação na forma de pensar e de obter convicções. A enciclopédia impressa carregava a chancela da curadoria especializada. Havia uma confiança implícita na autoridade do que estava escrito, e os “filtros” humanos — professores, mentores, familiares — eram fundamentais para validar e contextualizar o conhecimento.
No cenário atual de abundância, o desafio se inverte: a principal habilidade já não é encontrar informação, mas validá-la e interpretá-la. A IA, apesar de sua eficiência, levanta questões cruciais sobre a origem dos dados, o risco das chamadas “alucinações” (informações incorretas geradas pelas máquinas) e o perigo das “bolhas cognitivas”, que personalizam o saber e restringem a pluralidade de perspectivas.
Adaptar-se a essa nova realidade exige redefinir as habilidades de pesquisa e aprendizado. Não basta buscar: é preciso cultivar senso crítico, rastrear fontes e exercer uma “curadoria humana” para discernir a qualidade e a imparcialidade do conteúdo filtrado por algoritmos.
A reflexão que nasce do encontro com aquela estante de enciclopédias é, no fundo, sobre nossa extraordinária capacidade de adaptação. Em poucas décadas, transitamos de um modelo de acesso ao conhecimento escasso e lento para outro, ubíquo e instantâneo.
No entanto, essa transição molda percepções distintas de mundo. Quem folheou dezesseis volumes para concluir um trabalho escolar desenvolveu paciência, memória visual e disciplina de estudo diferentes de quem recebe uma resposta sintetizada em cinco segundos. Nenhuma forma é superior à outra — mas cada uma produz modos distintos de cognição.
A jornada do conhecimento — da estante física à nuvem algorítmica — não representa uma substituição, e sim uma evolução cultural. O papel da educação e dos profissionais — seja na saúde, na gestão ou em qualquer área — é integrar o legado da pesquisa rigorosa (a curadoria e a profundidade da enciclopédia) com a eficiência e o potencial das novas fronteiras (a velocidade e a personalização da IA).
O futuro é incerto, mas uma convicção permanece: cada era contribui, de algum modo, para a construção do saber. Se o passado nos ensinou a valorizar a fonte, o presente nos desafia a assumir a curadoria da nossa própria inteligência — garantindo que a vastidão do conhecimento digital não se perca em um oceano de dados sem contexto ou profundidade.
E, talvez, seja essa a mensagem mais atemporal de Cervantes: quem lê e viaja muito continua vendo e sabendo muito — ainda que hoje nossas viagens sejam digitais, e nossas enciclopédias, invisíveis.
E você? Qual experiência do seu passado mais contrasta com os tempos atuais?

Oi Fábio!
Me encanto com sua escrita !
Tenho 55 anos sou enfermeira de formação e iniciei um curso técnico de segurança do trabalho onde a maioria tem em média 20 anos ! É impressionante o tempo em que ele concluem as propostas do curso ! É mágico, é instantâneo, é encantador ! Chega a ser insano ! Parabéns pelos textos! Obrigada !
Muito bom! Sei o valor de uma estante preciosa. Tsar
Que texto cheio de significado! Ele nos faz lembrar que o conhecimento tem muitas formas — do cheiro das enciclopédias à velocidade da inteligência artificial. Mas o importante é manter viva a curiosidade, o encantamento e o olhar humano sobre o saber.
Nos despedimos dos livros, mas não do que eles despertam em nós.
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