Dizem que o coração é uma casa de muitos cômodos, mas às vezes esquecemos de abrir as janelas para o sol entrar. Na última quarta-feira, minha casa em Brasília não apenas abriu as janelas; escancarou as portas para receber um pedaço vivo da minha história. Quatro grandes amigos, quatro irmãos de vida vindos de Campina Grande: Castellon, Wilton, Valério e Adriano — o nosso grupo, os Elementos.
A chegada foi aquele choque térmico de emoção que só quem vive longe das próprias raízes conhece. Ver Adriano, meu irmão e parceiro de uma vida inteira, ali na minha frente, transformou o “quadrado” do Planalto em território paraibano. Com seu jeito cuidador, ele logo começou ajeitando as coisas, consertando o forno do fogão e trazendo aquela segurança silenciosa que só o sangue e a amizade verdadeira sabem oferecer. Valério, com seu companheirismo costumeiro; Wilton, com a sobriedade adquirida nas lutas da vida; e Castellon, com sua alegria contagiante, completaram o caldeirão dos sentimentos.
Na quinta-feira, a boemia começou no Libanus, um lugar que marca minha trajetória aqui. Na sexta, o destino foi Pirenópolis. Embora fosse a primeira vez de alguns, para mim a cidade carrega um eco familiar: ela sempre me remete a Acari, no Rio Grande do Norte — terra natal da minha mãe, cidade pequena e encantadora da minha infância, que moldou minha alma. Estar em Piri, entre cachoeiras e pedras, com Adriano ao volante, sendo mais uma vez nosso porto seguro, foi como revisitar memórias herdadas, como se a presença dele completasse o cenário.
O sábado foi o ápice dessa fusão de mundos. No churrasco em casa, Rafael — grande amigo que o mestrado em Matemática me deu e com quem percorri toda a jornada até o fim do curso — trouxe a música junto com Valério para selar o encontro. Mesmo com as dores da mão ainda em recuperação, consegui tocar cajón em algumas músicas. Ali, meus dois mundos se encontraram e se reconheceram. Estavam presentes Jeconias e Wallisson, que vieram especialmente para assistir ao jogo do Flamengo contra o Corinthians, somando-se à turma de Brasília, carinhosamente chamada de “Os Bests” — Victoria, Lucas, Alexandre, Keneth e Marquinhos.
A alegria se ampliou com a presença de Luisa e Hamilton, pais de Lucas, trazendo aquele acolhimento que só quem tem alma de família sabe oferecer. A Paraíba também se fez ainda mais presente com Denis e seus irmãos, que já moram aqui, além de Alane, as Jéssicas e Alan. Ganhei uma caneca dos Elementos — um símbolo físico de que, no afeto, não existe distância. O samba, que meu pai tanto amava, foi o fio invisível que costurou todos esses encontros.
No domingo, o ritmo não diminuiu. Fomos à Feira dos Importados comprar o som do carro de Valério, depois seguimos para o Choro no Eixo e encerramos no Sambinha da Vila. Foi o último ato antes do silêncio. A madrugada de segunda chegou trazendo a partida. Vi-os ir embora ainda no escuro e, horas depois, ao sair para trabalhar, percebi algo que me desarmou: o portão estava aberto.
Num primeiro instante, pensei em descuido. Depois entendi: era o meu inconsciente falando mais alto. Deixar o portão aberto era minha maneira de negar que a despedida tivesse se instalado. Era o desejo íntimo de que eles voltassem a qualquer momento para o café da manhã. Como escreveu Fernando Pessoa: “A saudade é a nossa alma a dizer-nos onde quer estar.”
Hoje, as lágrimas insistem em cair. Se este texto fosse escrito à mão, o papel estaria borrado. Dói o silêncio da casa, mas essa dor é um privilégio. Só dói assim porque foi gigante. A vinda dos meninos reacendeu em mim o quanto Campina Grande — e as pessoas com quem partilhei a vida — seguem sendo fundamentais. Despertou uma saudade que, por vezes, tento esconder de mim mesmo, talvez como um mecanismo de defesa, um jeito de anestesiar o sentimento para que ele doa menos. Mas a verdade é simples e implacável: não há escudo contra o que é verdadeiro. O portão agora está apenas encostado, mas a alma permanece escancarada, guardando cada risada e cada abraço como quem protege um tesouro.
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Belíssimo texto! Cheio de palavras que transferem pra o leitor o afeto com que foram escritas. Como é bom ter com quem trocar experiências e caminhar junto, independente das distâncias físicas! Que Deus conserve os elos que unem vocês, sempre em reciprocidade.
Muito grato
Sinta-se abraçado!
Grato