O que eu pensava ser apenas mais um domingo pela manhã — embalado pelo melancólico e vibrante ritmo do Choro no eixinho de Brasília — acabou se transformando em um portal para memórias e reflexões profundas sobre o acaso, o destino e o peso das nossas próprias decisões.
Tínhamos marcado um encontro com o pessoal paraibano, e tudo o que eu esperava era uma conversa descontraída. Cheguei ao local, armei minha cadeira e comecei a conversar, ao som da música.
De repente, meus olhos vislumbraram alguém familiar — um rosto que eu não via há priscas eras. Era uma ex-aluna dos meus primeiros anos como professor de matemática. Olhamos um para o outro e o reconhecimento foi imediato.
Começamos a conversar, e a surpresa só aumentava: fazia mais de 30 anos que não nos víamos, mesmo tendo morado nas mesmas cidades — Campina Grande e João Pessoa, na Paraíba. E, por uma daquelas “obras do destino casual”, estávamos ali, no mesmo ponto geográfico de Brasília. Fiquei me perguntando: seria acaso puro ou um fio invisível tecido pelo destino?
A certeza que fica é a do inesperado. É neste ponto que a mente se volta para a sincronicidade — a ocorrência significativa de eventos sem relação causal aparente — evocando a máxima de Carl Jung: “Coincidências são a maneira do Criador permanecer anônimo.”
Mas a conversa tomou um rumo inesperado. Ela disparou, a sangue frio:
— “Sabia que você me reprovou por poucos décimos e isso terminou modificando minha vida?”
A revelação me atingiu em cheio. Eu não me lembrava bem de como foi, mas sei que hoje teria outra opinião sobre aquela reprovação. Na época, eu ainda vivia o afã da juventude profissional, com uma visão acadêmica mais rígida e menos empática.
E então veio o golpe final, um verdadeiro soco no estômago:
— “E se você tivesse dado o que eu precisava? Como teria sido a minha vida?”
As perguntas dela, a reprovação, a mudança de curso, a jornada inesperada até Brasília — tudo isso me deixou em silêncio. Percebi que, mesmo sendo uma decisão colegiada, minha avaliação teve peso. Ela forçou um desvio. Fez com que ela perdesse de vista a costa original do próprio plano de vida.
O mais assombroso é constatar que, ao embarcar naquele oceano de possibilidades não planejadas, o caminho desviado foi, ironicamente, o que realmente a construiu. Talvez os “equívocos” acadêmicos daquela época tenham sido apenas as ferramentas que o destino utilizou.
Fiquei me perguntando: seriam devaneios dela, ou apenas a vontade incontida de buscar respostas que nunca virão? E quanto a mim — devo acreditar que as escolhas da vida dela, no fim, a conduziram ao caminho certo?
Penso até agora sobre isso, e sobre como o Criador usa o tempo de forma extraordinária: afastando e aproximando pessoas, guiando por trajetórias que não compreendemos. Talvez aquele reencontro tenha sido uma espécie de cura — e um lembrete poderoso de que cada instante é uma encruzilhada.
Em última análise, para construir um novo caminho, é preciso abraçar a incerteza do trajeto. Como disse o escritor francês André Gide:
“Não se pode descobrir novos oceanos a menos que se tenha a coragem de perder de vista a costa.”
Ainda assim, esse reencontro desafia a lógica. Viver por décadas na mesma região e só se cruzar, por acaso, a milhares de quilômetros de distância — no coração de Brasília — é uma improbabilidade estatística que beira o zero.
Foi um momento inesperado e simbólico, que me fez perceber: por mais que sigamos a matemática e a rotina, o universo sempre encontra um jeito de provar que o inesperado é, no fundo, o mais provável de acontecer.
E com você? O que de inesperado já aconteceu e mudou o rumo da sua história?

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