Arquiteto dos Hábitos
O despertar não é apenas um abrir de olhos; é o acionamento de um mecanismo interno que projetei para não me perder no caos do mundo. Ao desligar o ar-condicionado e encarar o espelho para a higiene matinal, retomo as rédeas da minha própria existência. Após um mergulho breve nas mensagens do celular — apenas o suficiente para me situar no tempo e no espaço —, desço em direção à terra. Cuidar das plantas é um compromisso profundo: aguar o que plantei é, em essência, zelar pela minha própria vida. Em seguida, tomo meus remédios e ganho as ruas do condomínio sobre duas rodas. Pedalando, o vento no rosto se impõe como uma prova concreta de liberdade física.
Viver em sociedade hoje exige cuidado redobrado para não transformar a rotina em uma linha de montagem sem alma, onde o ser humano se converte em autômato, limitado a reproduzir comandos externos. O mundo moderno nos empurra para a uniformidade e para uma produtividade que serve mais aos outros do que a nós mesmos. Assim se forma uma massa passiva, guiada por notificações, métricas e pressões sociais. Ao decidir conscientemente a ordem das minhas ações e priorizar o exercício e a contemplação, quebro esse ciclo. Recuso-me a ser apenas mais uma peça na engrenagem que mói a individualidade em nome da padronização.
Ao retornar, subo para o banho e me preparo para o dia. Ao descer novamente, o café e a organização da casa integram um ritual que privilegia o silêncio em um tempo que exige velocidade e barulho constantes. Preparar meu matcha e apreciá-lo enquanto observo a natureza transforma cada minuto de calma em uma pequena vitória contra o automatismo que insiste em nos tornar previsíveis e sem vontade própria.
Existe um abismo entre os hábitos que escravizam e aqueles que libertam. Enquanto muitos se rendem a costumes nocivos — como o scrolling infinito nas redes sociais logo ao acordar ou a submissão total ao imediatismo das demandas alheias —, minhas repetições caminham na direção oposta. Os hábitos nefastos são centrífugos: arremessam-nos para fora de nós mesmos, alimentando a ansiedade e fragmentando a atenção. Meus rituais, ao contrário, são centrípetos: trazem-me de volta ao centro. Enquanto a maioria inicia o dia reagindo aos estímulos, escolho começar agindo sobre o meu ambiente. Na urgência viciante do mundo, cultivo a virtude da paciência; na poluição sonora, escolho o santuário do silêncio.
Essa postura revela que ignorar o que nos é imposto tornou-se uma necessidade vital. Quem não escolhe o próprio caminho acaba seguindo a manada rumo a destinos que não compreende. Ao assumir o controle da minha vida e alternar entre o dever e o prazer de observar a natureza, exerço uma forma silenciosa — porém firme — de resistência política e espiritual contra a robotização do cotidiano. Se o hábito faz o monge, creio que ele também pode blindar a mente e nos tornar diretores da nossa própria história. Como escreveu George Bernard Shaw: “A vida não é sobre encontrar a si mesmo. A vida é sobre criar a si mesmo.”
E você? Quais são os seus rituais centrípetos — aqueles que o trazem de volta ao centro em meio ao ruído do cotidiano?

Eu tenho muitos rituais centrípetos. Um deles, não tocar no celular até cumprir minha rotina matinal. E que bom, estar podendo compartilhar com você. E unir nossas rotinas. ❤️
O meu é academia!