Uma amiga veio de Floripa passar uns dias em Brasília e, claro, fomos jantar para colocar os assuntos em dia e divagar sobre a vida. Entre goles, mordidas e risadas, ela soltou o seguinte comentário:
— Pois é… No fundo, eu acho que todo mundo esconde um lado assim. Eu, por exemplo, confesso que tenho alguns pequenos prazeres meio sádicos.
Com interesse imediato, perguntei:
— Pequenos prazeres sádicos? Como assim?
— (Rindo) Ah, calma! Não é maldade pura. É que sinto uma satisfação secreta em ver certas “justiças” acontecerem. Sabe aquele prazer de ver alguém tentando dar uma de esperto e se dando mal?
— Tipo quando a pessoa tenta furar a fila do embarque, atropelando todo mundo com aquela ansiedade desnecessária, e o agente do portão manda ela voltar para o final porque o grupo dela ainda nem foi chamado?
— (Gargalhando) Sim! Exatamente isso! Ver o sujeito voltando com aquela cara de “estou sendo injustiçado” enquanto todo mundo olha… é impagável.
— Confesso que esse eu também aprecio — admiti. — É quase pedagógico. Mas o que mais entra nessa sua lista de sadismos cômicos?
— Ah, tem vários! Tipo ver alguém que passou o tempo todo se gabando de ser “expert” em alguma coisa cometer um erro bobo na frente de todo mundo. E você? Não tem nenhum?
— Acho que o meu é mais contemplativo. Gosto de observar quem tenta ostentar uma vida impecável e, de repente, é traído por um detalhe mundano — tipo ter o cartão recusado na hora do pagamento. É como se o universo desse um pequeno “choque de realidade”, e eu ficasse ali, assistindo aos bastidores do caos.
— Viu só? No fundo, a gente só gosta de ver a ironia da vida em ação.
— Com certeza. E no campo da gastronomia, então? Gosto de observar aquele sujeito que se diz sommelier profissional, faz todo aquele ritual de girar a taça e falar de notas de carvalho… para depois descobrir que o vinho era o mais simples da carta.
— (Rindo) Nossa, sim! Ou aquela pessoa que quer parecer super sofisticada, tenta comer algo complicado — uma massa longa cheia de molho — e acaba espirrando um pingo generoso bem na camisa branca.
— É o triunfo do caos sobre a etiqueta — completei, rindo. — Admito que é um pouco sádico, mas a vida fica muito mais interessante quando o extraordinário aparece assim, quebrando a monotonia da perfeição.
— É isso! Não é que a gente queira o mal de ninguém. A gente só gosta quando a realidade dá um “oi” para quem vive de aparências ou tenta ser esperto demais.
— Exatamente. É uma espécie de justiça poética servida em pequenas doses.
No fim das contas, essa pequena “crueldade” cotidiana não nasce da vontade de ver o outro sofrer, mas de um desejo profundo de ver a verdade prevalecer. Como bem observou Zygmunt Bauman, vivemos em um terreno movediço de aparências. Quando a máscara de perfeição de alguém escorrega por causa de um pingo de molho ou de um cartão recusado, o que sobra é justamente o que temos de mais valioso: a nossa humanidade comum, falha e real.
Na psicologia, esse sentimento tem até nome: Schadenfreude. O termo alemão descreve a satisfação que surge diante do infortúnio alheio. No nosso caso, porém, ele aparece quase como uma versão educativa. Não se trata de desejar o mal, mas de apreciar aquele instante em que a arrogância perde o equilíbrio e a realidade volta a ocupar o seu lugar.
Quando essa pequena “justiça” acontece, o riso funciona como um alívio contra a pressão das aparências, trazendo de volta ao plano comum aqueles que tentam se colocar acima dele.
Claro, há limites éticos nessa nossa diversão silenciosa. Se alguém cai de verdade, o impulso que prevalece não é o riso, mas a mão estendida para ajudar. O que celebramos não é o acidente físico, mas o tropeço do ego.
É esse pequeno ajuste de contas com a realidade que torna a vida menos monótona e, de certa forma, mais justa. Afinal, por mais que alguém tente editar a própria existência para que ela pareça um comercial de luxo, o destino sempre encontra uma brecha para nos devolver à nossa deliciosa e imperfeita condição humana.

Boaaaa
A qualidade da perfeição não é deste orbe, principalmente quando a busca por ela tem como fundamento o ego(ismo).
Minha risada sai solta , quando algum homem me ultrapassa e chega lá no sinal agente se encontra . Tem mais coisa pra sorrir , mais não posso falar , por conta da lei de LGPD.