Este fim de semana foi, de fato, extremamente produtivo e enriquecedor. Tive a alegria de reencontrar pessoas queridas e viver uma troca intensa de ideias. Passei longos momentos em diálogos profundos com dois grandes amigos de longa data.
Em meio às conversas sobre a vida, o mundo e nossa própria existência, deparei-me com uma questão que, muitas vezes, nos paralisa. Pelo menos a mim, confesso, às vezes me custa admitir o valor alheio — aquilo que chamo de reconhecimento relutante.
O Reconhecimento Relutante não é apenas a dificuldade em elogiar; é a hesitação, ou até a resistência inconsciente, de admitir plenamente o valor intrínseco e o impacto positivo que outra pessoa exerce sobre nós. É a barreira que nossa própria autocrítica, insegurança ou viés negativo constrói entre a percepção da virtude alheia e sua expressão. Por ser severo comigo mesmo, percebo como projeto esse rigor para o mundo.
É amplamente comprovado que o cérebro tende a dar mais peso às informações negativas — o chamado viés da negatividade. No convívio íntimo e duradouro, é mais fácil fixar-se em pequenos “defeitos” — a mania irritante, o erro pontual — do que na soma das qualidades que sustentam a amizade ou o relacionamento. O reconhecimento se torna relutante porque exige um esforço consciente para ultrapassar essa camada de ruído.
Reconhecer profundamente alguém é um ato de vulnerabilidade. Ao dizer a um amigo: “Você é fundamental na minha vida”, admitimos uma conexão emocional e revelamos o quanto o bem-estar dele nos atravessa. A relutância, nesses casos, é uma defesa contra a possibilidade da perda, da ausência, do abandono.
Curiosamente, essa mesma ideia ressoou numa cena de uma série da Netflix que assisti logo depois: Um Espião Infiltrado.
Em um simpósio sobre James Joyce — ele de novo, um dos meus escritores prediletos, sobre quem escrevi o artigo “Ainda Era Ontem” quando estava em Dublin — cada participante fazia um brinde dizendo o que pensava do outro: suas características, sua importância para o grupo, os impactos positivos que havia provocado.
Vivemos tão condicionados à crítica construtiva que, muitas vezes, negligenciamos o poder simples e profundo do elogio direto. O Reconhecimento Relutante transforma em raridade aquilo que deveria ser cotidiano: expressar com clareza o valor de alguém.
É irônico — ou talvez intencional e profundamente coerente — que isso aconteça em um simpósio sobre Joyce. Ulysses, sua obra máxima, é uma celebração da vida comum e da epifania: a súbita revelação do essencial. O brinde, ao exigir o reconhecimento da essência do outro, é um tipo de epifania social — um momento de clareza em que o valor alheio se manifesta sem ruído. Achei o gesto formidável.
Joyce, com sua precisão cirúrgica, escreveu uma frase que traduz a importância das pessoas em nossas trajetórias:
“Toda vida é muitos dias, dia após dia. Caminhamos por nós mesmos, encontrando ladrões, fantasmas, gigantes, velhos, rapazes, esposas, viúvas, bons cunhados. Mas sempre encontrando a nós mesmos.”
— James Joyce, Ulysses
Essa experiência inteira me fez pensar no quanto essa atitude é difícil de colocar em prática. O desafio não está apenas em superar o viés da negatividade, mas em transformar a vulnerabilidade do reconhecimento em força. O brinde coletivo, como na cena da série, nos lembra que enxergar e verbalizar o valor de alguém não deveria ser raro, mas um músculo emocional a ser exercitado.
O reconhecimento sincero — não relutante, não tímido — é, no fim das contas, um ato de coragem. Ele valida o outro e, ao mesmo tempo, nos conecta mais profundamente com a nossa própria humanidade. É a verdadeira arte de nos encontrarmos no reflexo do bem que reconhecemos no outro.
E você — para quem brindaria?

Boa
Parabéns, Amigo
Pelo texto e pela sensibilidade.
“Por ser severo comigo mesmo, percebo como projeto esse rigor para o mundo.“
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