Tudo começou em uma quarta-feira, ao sair de mais uma sessão de fisioterapia — aquele rito persistente para recuperar a mão após a cirurgia e a queda da escada. Olhei uma mensagem recém-recebida. Era Denis, grande amigo paraibano, radicado em Brasília há tanto tempo que já é praticamente um candango. O convite era irrecusável: show de Edson Gomes. Como bom fã de reggae, aceitei.
Lá estávamos nós, entre os acordes graves do baixo, algumas conversas soltas e alguns goles, quando o acaso nos apresentou a um grupo de amigas. Em meio ao diálogo fluido e às reflexões que a música sempre me desperta, num momento que a memória já não precisa precisar, uma delas lançou o adjetivo que ficou ecoando:
— “Você é um diletante.”
A palavra ressoou. No dicionário, ela oscila entre o elogio ao amante das artes e a crítica à superficialidade. Mas, ao observar o rastro que deixei até aqui — entre as aulas lecionadas, o calor das panelas na gastronomia, a escrita no blog, a experiência como gestor público e o rigor das fórmulas — percebi que meu diletantismo não é falta de foco; é um sistema complexo de busca por sentido.
Sou curioso por natureza e matemático por formação. Tenho fome de absorver o mundo — de ler três livros ao mesmo tempo e de habitar múltiplas frentes. Se, por um lado, cuido do jardim com a roçadeira, organizando o caos externo, por outro mergulho nas abstrações.
Recentemente, concluí um MBA em Gestão da Saúde pelo Einstein e já sigo para outro, em Controladoria e Estratégia Financeira pela PUC-RS. Enquanto aprimoro o inglês, preparo a defesa do meu mestrado em Matemática na UFG, com o doutorado já no horizonte. Agora, com a recuperação dos movimentos da mão, retomei o que me devolve fôlego: o pedal, o caiaque no lago e o cajón nos sambas caseiros — com direito a planos, nada modestos, para me matricular em uma escola de música em breve.
Muitas vezes, essa agitação é também uma estratégia de sobrevivência. Penso muito — de forma lógica, intensa, acelerada. Se não ocupo as mãos nas panelas ou a mente em um novo campo do saber, sinto que posso “explodir”. O fazer é minha válvula de escape; mantém o motor no giro certo, sem fundir. É, confesso, uma forma de fuga também. Uma fuga daquele silêncio absoluto que nos obriga a encarar perguntas para as quais a lógica nem sempre tem resposta.
Mas que fuga extraordinária é essa, que me permite transitar entre a frieza dos números e o calor do diálogo humano? Adoro conhecer pessoas novas e sustentar conversas profundas — algo que, confesso, tem se tornado cada vez mais raro em um mundo inclinado a debates rasos e relações frágeis.
O tombo da escada me impôs uma pausa que minha mente jamais escolheria. Ali, entre o repouso forçado e a frustração de não poder usar as mãos na cozinha, compreendi que meu “diletantismo” é, na verdade, o que me mantém em equilíbrio. Não sou raso por gostar de muitas coisas; sou um polímata em construção, tentando encontrar a equação que una gestão, matemática, gastronomia, escrita, fazer — e a própria arte de viver.
Como escreveu Fernando Pessoa:
“Sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura.”
Como matemático, sei que o caminho mais curto entre dois pontos pode ser uma reta. Mas, como pessoa, aprendi que a beleza da jornada está nas curvas, nos desvios e na coragem de ser múltiplo. Minha mente é um jardim vasto demais para uma única espécie de saber. E eu continuarei aqui: pensando, calculando, cozinhando, aprendendo, ensinando, escrevendo — e, acima de tudo, conversando.

Já sei de quem herdei minha curiosidade de viver e testar novas experiências culturais
Pois é
Musica??? Novidade boa! hehehehe