O telefone tocou no exato momento em que eu preparava meu matcha. Enquanto batia o pó verde até que a espuma se tornasse densa, ouvi a voz de um amigo querido que não dava notícias há tempos. Ele estava frustrado, paralisado pela amargura dos dias.
Ouvi seu desabafo enquanto o calor da tigela aquecia minhas mãos. É gratificante sentir que alguém nos procura pedindo socorro — não pela dor alheia, mas pela honra de ser o destinatário de uma confiança tão rara. Ele teve a coragem de estender a mão e sair do próprio “aquário” de silêncio. Afinal, amigos servem para ser farol quando a neblina do outro está espessa demais.
Respondi com a crueza que só quem ama tem o direito de usar:
— Fala, camarada. Ouvi tudo o que você disse… e deixa eu te falar uma real. Sabe o experimento do peixe Lúcio?
Colocaram esse peixe num aquário com uma divisória de vidro invisível. De um lado, o peixe; do outro, as presas. O bicho tentou atacar inúmeras vezes e deu com o focinho no vidro em todas elas, até desistir. Ele aceitou que o seu mundo terminava ali. O problema é que, depois, tiraram o vidro.
As presas nadavam diante dele, mas o peixe morreu de fome, cercado de comida, porque, na cabeça dele, a barreira ainda existia.
A verdade é que, às vezes, esse vidro invisível já não está mais lá — mas nossos olhos, viciados na dor, perderam a capacidade de enxergar o espaço aberto. Temos uma dificuldade enorme em aceitar onde realmente estamos, porque o conhecido — mesmo que doloroso — nos consola.
Como observou Ralph Waldo Emerson:
“O que está atrás de nós e o que está à nossa frente são questões ínfimas comparadas ao que está dentro de nós.”
Você está tão ocupado olhando para os destroços que esqueceu da força que tem para atravessar esse aquário. Olhando para esse seu trabalho travado e para o peso do seu término… camarada, você é o próprio Lúcio agora. Você bateu tanto o rosto nesse “vidro” que, agora que o caminho está livre, parou de nadar.
— O vidro não existe mais, irmão. Ele virou apenas a memória de uma dor que já passou. Vamos quebrar isso agora? Faz um teste de cinco minutos. Só para ver se você vai bater o nariz ou se a água finalmente vai fluir.
Amanhã eu te ligo para saber se você se mexeu, fechado?
Nos despedimos e senti que ele desligou um pouco mais leve. Fiquei com o compromisso silencioso da rega constante. Na correria dos dias, às vezes esquecemos que é a nossa presença que ajuda o outro a perceber que o vidro sumiu.
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Muito bom
Pronto! Agora vc foi fundo! Me senti o próprio
Lúcio!
Como observou Ralph Waldo Emerson:
“O que está atrás de nós e o que está à nossa frente são questões ínfimas comparadas ao que está dentro de nós.”
Demais!!!