Existem viagens que fazemos de avião e outras que fazemos sem sair do lugar. No último final de semana, em Fortaleza, tive o privilégio de fazer as duas. Fui para reencontrar Paulo Cesar e Carol, amigos que a vida me deu em um encontro casual na belíssima Siena, na Itália. Daquele encontro nasceram dias inesquecíveis percorrendo os caminhos entre Florença e Roma, onde cada conversa e cada paisagem consolidaram uma amizade que atravessou o oceano. Fui também para abraçar Mariana, uma amizade de décadas que começou em sala de aula e se transformou em carinho e respeito mútuos.
No entanto, a caminho do restaurante, um gesto banal mudou o roteiro da minha alma. Diante da urgência de uma etiqueta na camisa da Mariana e da falta de uma tesoura, usei os dentes. O comentário dela veio rápido, entre risos:
— “Seus dentes parecem uma serra!”
Bastaram essas cinco palavras para eu ser arremessado para fora do carro, para longe de Fortaleza, direto para a minha infância. Em um segundo, senti novamente o impacto daquela queda antiga ao tentar pular uma grade para alcançar o azul de uma piscina. Lembrei do susto, do choro de dor e do meu sorriso “serrilhado” provisório.
Naquele instante, um turbilhão me paralisou: o que aquele menino que chorava pela queda pensaria do homem que me tornei hoje? Estaria ele satisfeito com os caminhos que percorri? Teria eu, de fato, cumprido meus sonhos pueris ou os teria enterrado sob camadas de conveniência?
Enquanto as imagens da minha vida passavam rápidas, refletidas no para-brisa, percebi que aquela queda na grade foi apenas o prenúncio de tantas outras que viriam. Hoje carrego placas e parafusos pelo corpo — marcas de acidentes e dores profundas que enfrentei. Ainda assim, entendi que essas cicatrizes também me tornaram melhor. De cada tombo emergi com mais força e vontade de viver, extraindo as lições que precisava aprender.
Perguntei a mim mesmo quantos sonhos deixei de lado pela “objetividade” da vida e me deparei com a pergunta inevitável: até onde estamos dispostos a ir para alcançar aquilo que desejamos?
Ao revisitar essa travessia e observar o lugar onde piso hoje, uma serenidade inesperada surgiu. Lembrei das palavras de Fernando Pessoa:
“O que fui é o que sou? O que sou é o que fui? Não sei. Mas sinto que o que fui e o que sou são estranhos um ao outro.”
Diante desse espelho do tempo, sinto-me profundamente satisfeito com as escolhas que fiz e com a vida que venho construindo. Mesmo com imperfeições e com as marcas dos tombos passados, sigo firme no propósito de ser melhor a cada passo. O essencial é manter consciência, respeito e compromisso com a própria verdade.
Hoje compreendo de onde vim, valorizo onde estou e mantenho a bússola apontada para onde desejo chegar.
É fascinante perceber como o destino se organiza. Precisei de amigos que conheci entre as torres de Siena e as praças de Roma para estar ali, naquele instante exato em Fortaleza, ouvindo uma amiga de uma vida inteira me devolver uma lembrança que eu nem sabia que tinha perdido.
Que bom que temos amigos que, ao notar nossos “dentes de serra”, nos ajudam a mastigar a saudade e a saborear a vida com a serenidade de quem entende que cada marca na alma — e cada parafuso no corpo — também é parte do que nos torna inteiros.
