Nesta madrugada, despertei num sobressalto, como se o silêncio lá fora tivesse algo a me dizer. O sono se desfez no ar, e o que restou foi o ritmo compassado da chuva dedilhando as folhas das árvores, trazendo para dentro do quarto o perfume da terra molhada. Em meio a essa sinfonia natural, que nos despe das certezas, vi-me mergulhado em pensamentos sobre o que é, afinal, a vida e o viver. Entre a luz suave da TV e o impulso de abrir as páginas de um livro, escolhi a aventura das imagens, buscando um refúgio para as inquietações que as madrugadas costumam despertar.
Assistir a Família de Aluguel (Rental Family, 2025/2026), dirigido por Hikari, foi uma experiência que tocou fundo. Seja pelo roteiro sensível, seja por me reconhecer nos dilemas do protagonista, o filme ressoou intensamente. Ver Brendan Fraser no papel de Philip — um americano solitário em Tóquio que sobrevive interpretando “parentes” para estranhos — provoca uma reflexão aguda sobre as relações humanas. Mas talvez o que mais me tenha impactado tenha sido o desfecho: daqueles momentos raros, silenciosos e tocantes, que permanecem gravados na alma.
A premissa de contratar alguém para ocupar um lugar afetivo na vida de outrem revela uma verdade crua sobre nós: como seres humanos, somos incapazes de atravessar relações ilesos. Não existe um “córrego” — aquela margem segura de onde possamos apenas observar o outro sem sermos molhados pela correnteza do convívio. Fica a pergunta: seria essa uma sugestão sutil de que, no mundo contemporâneo, nossas relações tornaram-se mais representações do que presenças reais? O fato é que, ao aceitar um papel e adentrar a intimidade de alguém, modificamos inevitavelmente aquela realidade — e, no mesmo gesto, somos transformados por ela.
A atuação de Fraser traduz com precisão esse ponto de inflexão: o instante em que a máscara do ator cede e a vulnerabilidade humana assume o controle. O afeto, sobretudo quando envolve entrega sincera, é um invasor que não respeita roteiros. Como escreveu Fernando Pessoa: “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.” Philip parece trilhar o caminho inverso: ele finge tão bem que a dor e o afeto deixam de ser encenação e passam a ser verdade.
Esses filmes nos atravessam porque funcionam como espelhos das nossas próprias encenações cotidianas. Eles revelam que, por mais que tentemos manter contratos emocionais e distâncias seguras, o coração desconhece cláusulas. No fim, a jornada de Philip no Japão nos ensina que o “fingir” pode ser, paradoxalmente, o caminho mais curto para a verdade — provando que ninguém consegue simular a vida sem acabar, de algum modo, vivendo-a de fato.
