Estava eu rolando minhas redes sociais, meio por hábito, meio por tédio, quando um vídeo de um influencer surgiu. Confesso: raramente me detenho nesses conteúdos — talvez por resistência, talvez por uma estranha antipatia que já nem faz tanto sentido. Mas, dessa vez, algo me prendeu. O vídeo era uma crítica ao consumo excessivo das próprias redes, e talvez por me ver naquela crítica, parei para assistir.
O que realmente me fisgou, porém, foi a expressão usada: “gladiadores digitais.” Ri sozinho ao imaginar pessoas vociferando na internet como guerreiros ao entrar na arena. Uma imagem cômica, se não fosse tão trágica.
Prometeram-nos uma praça pública global, um espaço democrático de diálogo. O que recebemos, no entanto, foi uma arena. Todos os dias nos transformamos em gladiadores, competindo por curtidas, compartilhamentos e comentários — os novos aplausos da multidão.
Nesse cenário, a autenticidade é sacrificada em nome do espetáculo. Vidas são editadas em feeds impecáveis; cada postagem é um golpe calculado para conquistar atenção. A vulnerabilidade e a rotina ficam de fora. Só o triunfo — mesmo que fabricado — tem lugar na arena. A visibilidade é moeda, e o esquecimento, derrota.
O sociólogo Zygmunt Bauman já havia alertado: “As redes sociais são muito úteis, oferecem serviços prazerosos, mas são uma armadilha.” Uma armadilha que troca qualidade por quantidade, conexão por solidão.
Sherry Turkle reforça esse paradoxo: “Estamos cada vez mais conectados, mas cada vez mais sós.” O gladiador digital, mesmo cercado por espectadores, veste uma máscara que o afasta da intimidade real.
E não é acaso: os algoritmos — novos mestres de cerimônia — premiam os conteúdos mais emocionais e polarizados, alimentando drama e conflito. Nesse jogo, não somos clientes, mas matéria-prima da economia da atenção.
Enquanto isso, reflexão e silêncio são expulsos do palco. Identidades, antes construídas ao longo da vida, agora se moldam em tempo real pelas reações instantâneas da audiência.
Não por acaso, Umberto Eco deixou o alerta irônico: “O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.”
Eis o dilema: permanecer na arena, em busca do aplauso efêmero, ou ter coragem de sair dela. O verdadeiro desafio é resgatar autonomia, desligar o microfone e lembrar que a vida é muito mais do que a performance diante da multidão.
Afinal, só quando deixamos de atuar como gladiadores digitais é que podemos recuperar a essência do que realmente nos conecta.
E você? Consegue sair da arena?

Boa
Muito bom. E o pior são os subterfúgios ardilosos usado!