Eu estava em um momento de quietude, com a mente vagando pelos labirintos da existência, quando uma reflexão profunda sobre a vida tomou conta de mim – novamente. Neste período do ano, é comum que fiquemos mais suscetíveis a esse tipo de introspecção.
Acredito que a maioria das pessoas — seja pelo encerramento de um ciclo, pelo calendário solar ou pelo próprio clima natalino — sente-se impelida a se autoavaliar, revisitar os caminhos percorridos e, inevitavelmente, listar os “erros” ou aquilo que julga como falhas. Muitas vezes fazemos isso de forma inconsciente, talvez na esperança de que, no próximo ano, tudo seja diferente.
No meu caso, essa introspecção ganhou camadas mais profundas com a proximidade do Natal, que será passado em Campina Grande, na Paraíba. A viagem é para estar com minha filha e com a família, mas o destino final é a casa que foi dos meus pais. Voltar a esse lar sem a presença física deles — que partiram rumo ao Criador — me atravessa de um jeito difícil de nomear.
Não é simples pisar naquele chão onde cada canto guarda memórias: risadas, gestos cotidianos, a essência de quem eles eram. As vozes que antes ecoavam pelos cômodos agora vivem na lembrança. A casa permanece, mas o calor da presença transformou-se em uma saudade quase palpável.
É justamente nesse território de fragilidade e confronto com a ausência — onde a vida se revela, ao mesmo tempo, bela e dolorosa — que ecoou em mim, com ainda mais força, uma frase que ouvi há algum tempo de um grande amigo:
“Nós não somos uma lista de imperfeições.”
Tão simples na forma, essa ideia carrega um poder libertador imenso. Tenho a tendência — com uma severidade que raramente aplico aos outros — de ruminar meus tropeços, minhas fragilidades e até manias que gostaria de extirpar. Acabo criando um inventário mental das minhas “não-qualidades” e, pior, transformando-o numa espécie de obsessão. Olho para o espelho interno dos meus pensamentos e vou anotando: item 1, procrastinador; item 2, chato; item 3, insensível — uma lista que, às vezes, parece não ter fim.
A frase do meu amigo, porém, foi um convite para romper esse paradigma. Ela me lembrou que a complexidade de quem somos ultrapassa — e muito — a soma dos nossos pontos a melhorar. Nossa essência não mora nos vazios, mas na tapeçaria inteira. Somos feitos de experiências acumuladas, de resiliência silenciosa, da capacidade de amar, da busca contínua por sentido e, sobretudo, da coragem de tentar novamente depois do erro. A chamada “imperfeição” de hoje é, muitas vezes, apenas o vestígio da lição aprendida ontem.
Essa compreensão encontra eco profundo na escrita de Pablo Neruda. Em Walking Around (1933), do Residencia en la tierra II, o poeta confessa, sem ornamentos nem idealizações:
“Sucede que me canso de ser hombre”, ou o “Sucede que me canso de ser homem” – na tradução em português.
Não é uma recusa da vida, mas um cansaço da forma — da máscara, da expectativa de coerência absoluta, da exigência de perfeição. Neruda não rejeita a humanidade; ele se cansa justamente do esforço constante de parecer inteiro, correto, ajustado. Seu verso é um manifesto em favor da verdade vivida, imperfeita, contraditória.
É nesse ponto que a reflexão se amplia: não somos definidos por uma contabilidade negativa dos nossos defeitos. Somos definidos pela nossa humanidade pulsante — a risada espontânea, a lágrima contida, o sonho que insistimos em preservar, a mão estendida no momento exato. A verdadeira aceitação nasce quando compreendemos que nosso valor não depende da ausência de falhas, mas da presença corajosa e autêntica de tudo aquilo que somos, inclusive do nosso cansaço de sermos humanos.
Que, neste fim de ciclo, a lista que nos mova seja a dos nossos potenciais, e não a dos nossos pontos fracos. E, sobretudo, que façamos disso uma escolha consciente de como seguir adiante.

Boa!