A rotina matinal pode ser traiçoeira, especialmente antes daquele primeiro café. Hoje, ao ir para o banho corriqueiro, eu sabia que depois teria uma missão simples: aplicar perfume e desodorante para garantir a decência olfativa do dia. O que deveria ser um gesto automático e cotidiano transformou-se, mais uma vez, em um novo capítulo da minha já longa saga de confusões com sprays e aerossóis.
Estiquei a mão e peguei o primeiro frasco que vi — agindo no puro automático — e apliquei generosamente nas axilas. Bastou sentir o cheiro forte, quimicamente gelado — definitivamente não era o aroma cítrico do meu desodorante — para um alarme disparar na minha cabeça. Olhei para o tubo nas minhas mãos: Spray para os Pés. Um produto específico, com função muito clara, agora repousava com tranquilidade nas minhas axilas.
E o mais bizarro é que esse tipo de lapso já virou tradição no meu banheiro. Já apliquei desodorante de axilas nos pés, confundi desodorante corporal com perfume… A lista de equívocos é longa e, francamente, cômica.
Mas essa confusão recorrente revela algo maior do que um simples deslize cotidiano. Ela expõe as camadas dos nossos hábitos. A mente humana é uma máquina de eficiência: tenta automatizar tudo o que pode, liberando o córtex pré-frontal para decisões mais complexas enquanto ações como escovar os dentes ou aplicar desodorante seguem no piloto automático.
Quantas vezes chegamos em casa no escuro sem errar os móveis? Basta alguém mudar algo de lugar e a canelada é imediata. Ou quando, num sábado tranquilo, saímos de casa e, sem perceber, nos conduzimos para a estrada que leva ao trabalho — quando, na verdade, queríamos ir para o outro lado da cidade.
Os hábitos nos ajudam. São a fundação da produtividade, o colchão que nos permite funcionar sem ter que repensar cada passo. Repetir as mesmas coisas, do mesmo jeito, cria um ninho confortável de familiaridade. Mas também pode nos aprisionar.
Se o automatismo poupa energia e agiliza tarefas diárias, a dependência excessiva desse piloto automático nos leva a uma pergunta incômoda: o que perdemos ao viver cronicamente desatentos? Ao terceirizar a consciência para a repetição, corremos o risco de transformar dias, semanas e até anos em um borrão indiferenciado. A falta de atenção plena não resulta apenas em spray de pés na axila: pode nos fazer perder oportunidades, ignorar nuances importantes nos relacionamentos e responder aos desafios apenas reagindo — nunca escolhendo.
Viver no modo automático, no limite, nos rouba a percepção da própria vida. Transforma a existência em uma sequência de ações não sentidas, decisões não ponderadas.
Quando o ambiente muda minimamente (uma chave colocada em outro lugar, uma embalagem trocada) ou quando nossa atenção está baixa, essa automatização pode se voltar contra nós. O cérebro, condicionado a esperar o mesmo resultado — o click do spray, o cheiro familiar do desodorante — ignora rótulos, ignora a evidência visual. Ele assume que está fazendo a coisa certa porque o hábito diz que sim.
Retomar a atenção é um gesto de resistência. Ao escolhermos viver com mais presença e percepção do que nos cerca, quebramos a inércia mental que produz deslizes como a confusão dos sprays. Em vez de permitir que o hábito assuma o controle, a consciência exige um breve — mas crucial — instante de engajamento. E isso não é fácil. Usamos nossa mente também para criar zonas de conforto; afinal, como disse Nietzsche, “o que é cômodo nos consola.”
Não pretendo soar clichê ao dizer que devemos sair da zona de conforto, mas provocar uma reflexão: existe uma vida mais abundante quando começamos a viver de fato, e não apenas a repetir os dias. Como escreveu Oscar Wilde: “Viver é a coisa mais rara do mundo. A maioria das pessoas apenas existe.”
A minha saga dos sprays é um lembrete vívido de que essa repetição automática, embora útil, também pode ser uma armadilha. É o momento em que a comodidade vira erro, e a economia de energia cria situações adversas e inesperadas. Não se trata de abandonar os hábitos — eles são necessários. Mas sim de reconhecer que um único instante de presença real pode ser mais poderoso do que anos de automatização descuidada.
E você?
Em quais momentos da sua vida você se sente robotizado por si mesmo?

Consegui transformar a atividade como um hábito na minha vida. Hoje meu cérebro não gasta mais energia pessando se vai ou não fazer aquilo. ELE SÓ VAI!
Nunca. Só vivo o que sinto. Não quero apenas existir. Viver intensamente me faz feliz. Pode ser horrível para alguns não ter rotina, não conseguir ter tudo planejado. Porém, no meu caso era a META. Vivo o que sinto. Falo o que sinto. E quando não há mais espaço ou não posso ser plena consigo recuar. Acho que isso se chama maturidade. Para alguns loucura. Para mim apenas aceitação de como sou.
Já eu aposentado é baratino mesmo! Rsrsrsr
Eu evito me robotizar. Não cultivo rotinas rígidas: escolho viver cada momento com intensidade e intenção. Isso se torna ainda mais evidente nos meus momentos de autocuidado: seja com a estética, na saúde física, mental e emocional.
Acredito que nós, enquanto sujeitos, precisamos reconhecer e valorizar o autocuidado como um movimento interno de presença, uma atenção delicada e necessária a nós mesmos.
E confesso: eu adoro mudanças. Fujo de qualquer rotina que me aprisione, porque sinto profundamente que cada dia é uma bênção, onde as abre uma janela diante de nós.
Parabéns pela escrita leve e criativa. Este artigo não apenas diverte pelo humor, mas também nos recorda que a vida exige intenção, presença e escolhas verdadeiramente conscientes.