Durante a nossa jornada, atravessamos constantes ciclos de dúvidas e certezas — o que, de certo modo, é a própria natureza do caminhar. Enfrentamos indefinições sentimentais, profissionais ou rupturas que, por vezes, tentam nos paralisar. No entanto, em meio a uma conversa com as amigas Márcia Lucena e Nézia, percebi como as palavras certas têm um poder quase mágico de nos despertar.
Quando Márcia comentou que “dúvida se cura com coragem; certeza, com confiança”, ela não ofereceu apenas um consolo poético, mas desenhou um verdadeiro mapa para a vontade.
A dúvida é, por essência, um estado de inércia. É o excesso de caminhos possíveis que acaba por anular o passo. Diante dela, o intelecto se esgota tentando calcular variáveis e prever riscos que talvez nunca se concretizem. É nesse momento que entra a coragem. Ela não é a ausência do medo, mas o reconhecimento de que a estagnação é o maior dos erros. Como lembra Dom Quixote, o imortal personagem de Miguel de Cervantes: “O caminho é sempre melhor que a estalagem.” Curar a dúvida com coragem é aceitar que o movimento é o único mestre capaz de dissipar a névoa; ao caminhar, a paisagem muda e o que era incerto ganha contornos de realidade.
Já a certeza guarda um perigo mais sutil: a rigidez. Se a dúvida nos paralisa por falta de chão, a certeza excessiva nos aprisiona em uma única direção, cegando-nos para as curvas necessárias da vida. A certeza absoluta, ironicamente, é o oposto da fé — é uma tentativa vã de controle total sobre o futuro.
A cura para esse “gesso mental” é a confiança. Diferente da certeza — que busca garantias externas e resultados exatos —, a confiança é um estado de espírito. É a segurança de que, independentemente do que o destino apresente, temos os recursos internos para lidar com o novo. Confiar é saber que, mesmo quando os planos mudam ou o cenário se transforma em desordem, o nosso eixo permanece intacto.
Sempre fui movido por uma confiança intensa, o que, por vezes, também me levou ao erro. Ainda assim, carrego comigo a convicção de que o erro é um mestre indispensável. Talvez pelas cicatrizes dos muitos acidentes que sofri, aprendi a acreditar que a dor — seja ela física ou da alma — é uma grande pedagoga. Não existe aprendizado real sem algum rastro de dor; é ela que talha em nós a sabedoria que o conforto jamais ensinaria.
O perigo surge quando a confiança se torna excesso. É nesse momento que perdemos a percepção do desastre previsível e deixamos que a segurança se confunda com teimosia. Quando a confiança deixa de ser o eixo que nos sustenta e passa a ser a venda que nos cega, o erro deixa de ser pedagógico e passa a ser apenas um reflexo da imprudência.
É preciso saber distinguir o passo corajoso do salto cego para o abismo.
No fim das contas, o que Márcia me proporcionou com suas palavras foi um lembrete simples e poderoso: a vida não é um problema matemático a ser resolvido com exatidão, mas um fluxo constante. Para os momentos de névoa, a coragem do peito aberto; para os momentos de rigidez, a leveza de quem continua caminhando, mesmo sem enxergar exatamente onde o horizonte termina.

É sobre… muito bom.
Seu texto nos convida a abraçar a jornada com menos ânsia por respostas definitivas e mais fé em nossa própria capacidade de adaptação e crescimento. É um lembrete de que, no fim das contas, o mais importante é continuar em movimento, com o peito aberto para o que vier. Parabéns pelo artigo!
Perfeito! Precisa despertar pra coragem hoje