Li um texto e, em uma conversa com uma pessoa muito querida, começamos a falar sobre amores, relacionamentos e convivência — e sobre como os smartphones, de certo modo, vêm corroendo os vínculos e banalizando o amor.
Fui desafiado por ela a escrever algo sobre o tema. Em vez de um artigo tradicional, preferi construir um pequeno diálogo fictício sobre a transição de um casal que sai de uma conexão técnica — estar online — para uma conexão emocional — estar presente. Eles escolhem resgatar a individualidade, entendendo que a liberdade de “ir” é o que torna o “voltar” especial. Às vezes, precisamos nos desplugar para reacender o relacionamento e afagar o amor.
A cena acontece em uma mesa de jantar, sem celulares à vista. O som ambiente é o tilintar dos talheres e das taças — um silêncio que antes parecia sinal de distanciamento, mas que agora ambos tentam cultivar como um espaço de reencontro.
Ele: (olha para o prato, depois para ela, com o sorriso de quem guardou um segredo)
Sabe… hoje eu quase caí na tentação. Tive uma vontade absurda de te mandar um vídeo no meio da tarde. Um meme bobo sobre aquele café metido a besta que a gente tomou na cafeteria da Chapada dos Veadeiros sábado passado.
Ela: (sorri de canto, mexendo na taça)
E por que não mandou? Achei que você estivesse atolado de reunião lá na Esplanada, resolvendo as paradas no Ministério.
Ele:
Que nada, véi. Eu estava com o celular na mão, o dedo coçando. Mas aí lembrei daquele texto sobre a “morte do silêncio fértil” que a gente leu. Pensei: “Se eu mandar isso agora, a gente vai rir por dois segundos no WhatsApp. Eu mando um emoji, você responde rápido e pronto”. Quando eu chegasse em casa, não ia ter esse brilho no olho de te contar a parada pessoalmente.
Ela: (suspira, relaxando na cadeira)
Maluquice, né? No começo, confesso que achei que a gente estava se distanciando porque o nosso chat ficou silencioso. Me deu uma agonia… parecia que, se eu não soubesse se você já tinha atravessado a Ponte JK ou o que estava pensando às três da tarde, eu estava perdendo o fio da meada.
Ele:
Pois é. A gente transformou o cuidado numa espécie de vigilância digital, uma aperreação sem fim. Eu sentia que precisava te dar check-in o dia todo: “Cheguei no anexo”, “Almocei”, “Tô saindo da pauta”. No fim do dia, a gente sentava aqui e parecia que já tinha assistido ao filme da vida um do outro. Não sobrava espaço para imaginação… nem para saudade.
Ela:
É o que o texto chamou de “Eros de vidro”. Ficamos transparentes demais, sem mistério nenhum. Sinto que, nestas últimas semanas, parando de narrar minha vida em tempo real, voltei a ter um mundo só meu. E o mais massa é que ter esse meu cantinho me faz ter ainda mais vontade de voltar para o nosso mundo à noite.
Ele:
É isso! A saudade não é um erro do sistema, é o combustível. Hoje, quando eu abri a porta, eu não fazia a menor ideia de como tinha sido sua tarde. Eu tive que perguntar de verdade. E te olhar nos olhos para ouvir a resposta é mil vezes melhor do que ler um balãozinho azul na tela — sem tom de voz, sem o teu jeito.
Ela: (catuca a mão dele sobre a mesa e aperta com carinho)
A gente estava trocando profundidade por conveniência, visse? O amor precisa desse vazio para que a gente caminhe um em direção ao outro. Se eu estou sempre no teu bolso, via celular, nunca sinto a alegria real de te encontrar de verdade.
Ele:
Menos notificação, mais presença. Prefiro mil vezes esse silêncio de agora — em que fico curioso sobre o que você está matutando aí — do que aquele ruído constante de mensagem banal.
Ela:
Boto fé… Já que eu não te contei por mensagem, para não queimar a largada: aconteceu uma coisa engraçada hoje quando eu estava passando ali pelo Pontão…
Ele: (inclina-se para frente, atento)
Manda. Sou todo ouvidos. Me conta essa resenha toda.
E você?
O silêncio entre você e as pessoas que ama é um espaço de paz — ou um vazio que você sente urgência em preencher com tecnologia?
