Tenho dedicado um tempo diário para refletir sobre tudo e nada ao mesmo tempo, numa tentativa quase ritual de reconstruir uma conexão genuína com a natureza. Faço isso rotineiramente: preparo meu matcha e contemplo as plantas, as fruteiras e os animais que surgem no jardim onde moro. Tenho, felizmente, um pequeno pomar, onde pássaros e outros visitantes alados vêm e vão, compondo uma cena bucólica e restauradora.
“Quando não somos mais capazes de mudar uma situação, somos desafiados a mudar a nós mesmos.”
— Viktor E. Frankl
Essa busca por quietude contrasta de forma brutal com a turbulência do mundo digital, onde a atenção virou moeda e a dispersão, regra. É nesse cenário que surge a expressão rage bait (em tradução livre, “isca de raiva”), escolhida como Palavra do Ano pelo Dicionário Oxford. O termo descreve conteúdos criados propositalmente para provocar indignação, polarizar opiniões e gerar engajamento massivo nas redes sociais. Segundo a Oxford Languages, seu uso triplicou em 2025 — um sintoma eloquente do nosso tempo.
A monetização tornou-se central nas plataformas digitais e, segundo especialistas, a raiva é um dos catalisadores mais eficientes. O rage bait existe porque indignação gera clique, clique gera engajamento, e engajamento gera receita. A escolha do termo expõe uma verdade incômoda: nossa infraestrutura digital não apenas tolera, mas recompensa financeiramente o conteúdo que fragmenta, manipula e inflama.
Vivemos numa sociedade em que a maneira mais rápida de obter atenção é pela provocação emocional, não pelo diálogo. Ao explorar temas sensíveis de forma caricata ou distorcida, o rage bait alimenta bolhas ideológicas e enfraquece qualquer tentativa honesta de debate, aprofundando fraturas que já são antigas.
Cada vez mais, tenho a impressão de que nos perdemos em algum ponto da estrada — e que o mundo virtual passou a interferir diretamente na nossa percepção sobre o que é real, e não o contrário, como deveria.
Recentemente, num happy hour, ouvi de um amigo um relato inquietante. Ele passou a usar um aplicativo para bloquear o smartphone da filha por causa das notas baixas. A intenção era educativa, mas o efeito foi devastador: crises de ansiedade, episódios de pânico, uma sensação real de abstinência. Ao final, as notas melhoraram — mas o tempo diário de uso do aparelho permaneceu o mesmo: 11 horas por dia.
Sim, você leu certo: uma adolescente, em fase de formação sensorial e emocional, passando quase o dia inteiro conectada a uma máquina.
Basta somar esse tempo ao das horas de sono para dimensionar o tamanho do problema. Que tipo de geração estamos moldando? E, mais urgente: o que podemos fazer hoje para mitigar esse processo?
Tenho pensado nisso sem ainda querer mergulhar em outro tema vertiginoso, cujo alcance mal começamos a compreender: o uso da inteligência artificial não apenas para tarefas técnicas, mas como “presença afetiva”, espécie de amigo substituto para vazios existenciais. Algo aí me inquieta profundamente: se as máquinas aprendem com aquilo que recebem, e se a indignação é o principal combustível das redes, que tipo de diálogo estamos ensinando a ser devolvido?
A busca por verdade cede lugar à busca por confirmação, estimulando a nossa permanência e dependência dos dispositivos. E nossa sociedade, invariavelmente, parece cada vez mais fragmentada. A indignação vira identidade. A escolha da Palavra do Ano de 2025 soa quase como continuidade natural da anterior: brain rot (“apodrecimento cerebral”), expressão que simbolizou o esgotamento mental produzido pelo consumo contínuo e passivo. Agora, já não estamos apenas cansados — estamos sendo ativamente manipulados para permanecer irritados. E isso cansa de outro modo: uma fadiga emocional profunda.
Ainda assim, há uma fresta de luz. O simples fato de rage bait ter sido amplamente usado e votado revela um crescimento da consciência coletiva. As pessoas começam a nomear o que as adoece. Estamos desenvolvendo um vocabulário para reconhecer — e talvez resistir — às engrenagens invisíveis da engenharia emocional.
Podemos, se quisermos, escolher esse olhar mais esperançoso. Mas também é honesto dizer: depois de séculos tentando integrar razão e sensibilidade, hoje parece que regredimos à fome por certezas simples — o “sim” e o “não” — expulsando o “talvez”, que é justamente onde a maturidade se constrói.
O rage bait, no fim, é mais do que uma tendência linguística.
É um alerta ético.
Um aviso claro de que, se não desacelerarmos, se não reaprendermos a silenciar e discernir, nossa vida digital continuará sendo guiada por incentivos que lucram com nossa raiva — e empobrecem nosso espírito.

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Um aviso claro de que, se não desacelerarmos, se não reaprendermos a silenciar e discernir, nossa vida digital continuará sendo guiada por incentivos que lucram com nossa raiva — e empobrecem nosso espírito… Penso que estamos piorando!
O texto é potente… urgente e extremamente atual.
Você articulou muito bem como a tecnologia, usada sem consciência, está moldando comportamentos e fragilizando vínculos reais. A história da menina, expõe de forma cruel o tamanho da dependência emocional que construímos com as telas.
Acho que é um alerta necessário…provoca, inquieta e nos faz pensar seriamente sobre o futuro que estamos criando… tenho pensado muito nisso esses dias.
Gostei!
Verdade. Tá fazendo aterramento enquanto coloca água nas plantas? Descalços!