A madrugada chegou pesada, naquelas três da manhã em que o mundo parece prender a respiração. A escuridão era densa, sem promessa de sol. Lá fora, o silêncio só era rompido pelo som ritmado do orvalho e da garoa caindo sobre as folhas do jardim.
Fina e persistente, a chuva tecia um véu úmido sobre o asfalto de Brasília, espalhando o cheiro fresco da terra molhada. Era o cenário perfeito para a penumbra. E foi nessa calmaria úmida que, pouco afeito ao sono e já satisfeito com o descanso, resolvi ligar a TV: “Alexa, liga a btv.”
No meio da grade, a surpresa: A Little White Lie (Uma Mentira Inocente). Uma comédia dramática com Michael Shannon e Kate Hudson, sobre um faz-tudo confundido com um escritor famoso e convidado para salvar um festival literário. Um achado, com humor cativante e uma pergunta central: o que separa o sonho da realidade?
O filme me fisgou justamente por explorar essa confusão entre o real e o imaginário. Quantas vezes tentamos distinguir o que foi sonho do que aconteceu? Ou aquele déjà vu que nos invade com a sensação de repetição? Inevitavelmente, surge a dúvida: espiritualidade, ancestralidade, memória ou apenas ilusão?
Essa dinâmica também aparece nas relações humanas. Há encontros em que, de imediato, sentimos afinidade, identidade. Em outros, nada. Chama-se rapport na psicologia: a sintonia que nos aproxima pelo semelhante, seja em valores, seja no estilo. Mas, em nível mais profundo, muitas vezes uma pessoa desperta em nós padrões de infância, ativa lembranças sutis, ou projeta aquilo que gostaríamos de ser.
No fim, filme e garoa da madrugada se misturaram, como se ambos me lembrassem de que estamos sempre tentando decifrar o que é genuíno e o que é apenas projeção.
E o que realmente me marcou foi uma cena: o suposto escritor lê um trecho de seu livro fictício. Nele, o personagem encontra um sósia perfeito — alguém que veste as mesmas roupas, segue para o mesmo compromisso, pede a mesma comida e o mesmo vinho. É o déjà vu elevado ao extremo.
O personagem paralisa, até que a pergunta explode no ar: “Quem é o impostor?”
E nós também perguntamos: o impostor sou eu, este “eu” do presente? O “eu” do passado que rejeito? Ou o “eu” que ainda projeto e não alcancei? Quantas vezes ficamos nessa encruzilhada, na dúvida cruel sobre quem realmente somos e queremos ser?
Como disse Denis Waitley: “Não é o que você é que o impede de avançar; é o que você pensa que não é.” Talvez o desafio esteja em não perder a essência — mesmo quando a vida exige novas versões de nós mesmos.
Vivemos, assim, numa tricotomia constante: o que fomos e desejamos preservar, o que somos e precisamos viver, e o que sonhamos ser. A cena do livro não é apenas metáfora de um personagem, mas o espelho da luta íntima de cada um de nós: a batalha para sermos inteiros em meio às nossas próprias versões.
E você? Qual foi o déjà vu que mais lhe marcou?
